quarta-feira, 27 de junho de 2018

O que não dizer a uma mãe ou a um pai de gêmeos


Tenho observado, nesta minha mais nova trajetória de mãe de múltiplos, que bebês gêmeos chamam muita atenção por onde passam. Ao observarem dois carrinhos lado a lado, muitas pessoas se aproximam, fazem perguntas e, obviamente, emitem comentários a partir de seus julgamentos sobre como é viver a maternidade de mais de um bebê ao mesmo tempo.
Muitos desses comentários são bem agradáveis e alegram o meu coração. Outros, entretanto, são repletos de julgamentos e me entristecem, posto que viver essa experiência é, para mim, maravilhosamente linda. Desde que soube que havia dois bebês em meu ventre, fui tomada de uma alegria e de uma sensação de que estava sendo duplamente agraciada. O que de melhor alguém pode receber do que ter um filho? Somente ter dois ou mais. Por isso, ouvir julgamentos que tratam a maternidade de dois de forma pejorativa ou demasiadamente penosa é algo que eu, realmente, não gosto.
Justo por isso decidi escrever esse post com o título: o que nunca dizer a uma mãe ou a um pai de gêmeos. As observações aqui colocadas são fruto de minha pouca experiência neste campo, já que os meus meninos só possuem três meses. Mesmo assim, ela expressa alguns comentários pouco empáticos que temos ouvido e que, de alguma forma, chateiam nossos lindos dias.

1-    Que trabalhão, não é?

Nove em cada dez pessoas que se aproximam de nós emitem esta frase dentre as primeiras que pronunciam. Sim, bebês dão trabalho. Fazem isso não porque são mimados, mas, sim, por serem totalmente dependentes dos adultos tanto fisicamente quanto emocionalmente. Acordar a noite para alimentar ou acalentar, trocar fraldas, dar banho, entre outras coisas faz parte da rotina de qualquer recém-nascido. No caso de gêmeos não é diferente e este tipo de trabalho deve ser totalmente previsível quando se deseja ter um ou mais bebês.
O problema não está, ao meu ver, nas pessoas reconhecerem este trabalho. A questão chata é que isso seja dito logo de cara como o fator mais relevante. Parece que o mais importante é o trabalho que se tem e não o amor que se vive.

2-    São seus primeiros filhos? Vai fechar a fábrica, não é?

Parece-me que há uma “lei” atual de que as pessoas só podem ter dois filhos. Vivemos no Brasil um sistema ditatorial (do julgamento alheio) que determina quantos bebês você tem o direito de ter: no máximo dois. Superar a expectativa social tem sido enxergado como uma afronta e tratado, por grande parte das pessoas, de forma muito desrespeitosa.
 Como meus gêmeos vieram após um menino mais velho, as pessoas, quando me fazem a pergunta sobre serem os primeiros escutam:
- Não, já tenho um mais velho de seis anos.
Neste momento, me olham com ar piedoso e completam:
- Nossa, você é doida? Gosta de ter filhos, não é?!
Bem, eu gosto sim de ter filhos e sempre quis ter três crianças em casa. Na verdade, queria até mais, mas as condições biológicas, sociais e financeiras não me permitem. Acho muito desagradável quem julga quantos filhos você está autorizado a ter. Essa é uma decisão que diz respeito, unicamente, aos pais e quanto menos julgamento melhor. Por isso, jamais emende a pior pergunta: Vai fechar a fábrica, não é? Lembrem sempre que esta é uma decisão da família. Somente os pais sabem de seus desejos e suas condições. Sua curiosidade em saber as pretensões do casal não deve nunca ser maior que o respeito às decisões dos outros. 

3-    Vai tentar a menininha?

Me parece existir, além da ditadura do número de filhos, uma crença generalizada de que todas as pessoas desejam ter meninos e meninas. Não entendo porque todos acham que qualquer pessoa, sobretudo as mulheres, desejam ter uma mini versão de si mesmas.
No meu caso tenho três meninos e me sinto completa e realizada assim. Caso a pergunta fosse: deseja ter mais filhos? Talvez eu respondesse que sim, mas, mais uma vez, o sexo seria completamente indiferente, já que amo pessoas e não o sexo ou gênero que elas apresentam.
Poderia ter quatro filhos e quatro meninos. Não me faria nenhuma diferença a presença de meninas ou meninos, mas, sim a possibilidade de amar e ser amada por mais filhos sendo todos meninos, todas meninas ou meninos e meninas. Nunca tive preferências a este respeito e isso pode ser absolutamente normal.   

4-    Eles são idênticos? Mas a mãe sempre reconhece, não é?

Sim, no meu caso eles são idênticos. Nem todo gêmeo é igual ao outro, mas, em meu caso, sendo univitelinos, a probabilidade é imensa de que sejam completamente iguais. De tão parecidos, a família vai encontrando formas de diferenciá-los, prestando atenção aos mínimos detalhes e a variáveis de personalidade.
Nem sempre a mãe sabe quem é. Nem sempre o pai, a vó, as tias sabem quem é quem. Mas parece que somente a mãe carrega esta obrigação tácita de diferenciá-los e, não distinguir imediatamente cada um dos bebês é tratado como algo inconcebível para uma “boa mãe”.
Aqui em casa, agora, tem sido um pouco mais fácil diferenciar Théo de Thales. Nem sempre isso é possível e eu, a mãe das crianças, já os confundi algumas vezes. Por isso, sabendo que nem sempre a mãe reconhece quem são, apostamos em cores de chupeta diferentes, roupas diferentes e a utilização de pulseira com nome para que Théo não vire Thales nem Thales vire Théo.
Por isso, esse tipo de pergunta coloca sobre as mães uma responsabilidade que elas não dão conta e cria uma culpa imensa nelas, visto que elas acreditam que todas as mães de gêmeos possuem a capacidade sobrenatural de diferenciá-las, o que não é verdade.

5-    Foi natural ou fez inseminação?

Dentre as perguntas mais inconvenientes feitas às mães de gêmeos esta me parece a Top One entre as piores. Qual a diferença entre o método de fecundação? É mais mérito ser natural ou fertilização in vitro?
No meu caso, meus meninos vieram numa gravidez natural, mas, poderiam ter vindo por fertilização que não seria problema algum. É possível que venha uma gravidez de gêmeos naturalmente, mesmo quando não há ninguém na família com este histórico prévio. Esse é o meu caso.  
Eu não teria problemas em falar sobre tratamentos para engravidar, mas há mulheres que não gostam e elas têm o direito de não quererem falar sobre isso. O mais engraçado é que quando as pessoas veem um bebê único, dificilmente, perguntam sobre o método de fecundação.
Saibam que há gêmeos que, naturalmente, são gerados. Há gêmeos que, por fertilização, são gerados. É exatamente igual aos casos de bebês únicos. O importante é que eles foram desejados, amados, esperados e cuidados. A forma como foram gerados não faz diferença e não diz respeito a ninguém além dos pais. Por isso, embora esta seja a última coisa que não se deve dizer aos pais de gêmeos neste texto, deve ser a primeira a ser evitada.

Há perguntas alternativas e bem mais agradáveis a se fazer às mães e aos pais gemelares: Como tem sido viver esta experiência?  Como é incrível, não é? Precisam de ajuda? Posso colaborar com algo? 
Caso não consiga pensar em nada melhor do que as cinco frases/expressões acima, apenas sorria para mãe ou para o pai e elogie suas crias. Nada é mais feliz para quem vive a maternidade/paternidade do que ouvir um: "como são fofos seus bebês!" Certamente, apenas com elogio, não correrá o risco de ser desagradável justo num momento em que mãe e pai estão super felizes.



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