segunda-feira, 22 de junho de 2015

Ideologia da Empatia

Recentemente tomei um baita susto ao perceber a polêmica em torno do Plano Municipal de Educação (PME) do Recife, em função da presença do termo gênero no referido texto legal. Isso porque, para alguns, a presença da expressão constitui-se numa pseudo “ideologia de gênero”, sendo nefasta ao desenvolvimento infantil.
Tal crença está sustentada em idéias bastante absurdas, tais como influenciar, desde a primeira infância, práticas homossexuais na escola. Ora, se tal argumento já nos soa de forma absurda, ficamos ainda mais impressionados quando lemos o conteúdo do documento e a forma séria e coerente como o assunto foi tratado, percebendo que houve, claramente, manipulação na divulgação da informação entre alguns que possuem status de liderança, tais como gestores de escolas (pasmem, mas teve escola fazendo abaixo-assinado contra o documento) e lideranças evangélicas.
Vejam, logo no início do PME, a primeira vez que a expressão nos apareceu foi no tópico 3.4, cujo conteúdo destacou que é preciso “promover a superação das desigualdades educacionais, com ênfase na promoção da igualdade racial, geracional e de gênero”.
Qual o mal que há neste texto? Como podemos pensar num projeto educativo - seja em qual segmento for - apartado de concepções de igualdade nas suas variadas formas?
É por isso que a escola, por ser um espaço privilegiado de convivência com a diferença, precisa se sustentar em valores morais, cujo respeito (mútuo) seja a base da constituição da formação moral de nossas crianças. Não podemos pensar em respeitar apenas àqueles cujas representações nos parecem similar, mas, sim, respeitar a todo e qualquer sujeito porque esse é um sentimento importante e que não pode ser circunstancial. Isso põe fim à idéia limitada de que respeitamos o outro porque ele merece respeito, e passamos a fazer isso em nome de um autorrespeito que, de tanto legitimar essa ação, faz uso dela.
É por isso que o documento (tópico 8.2) sugere “implementar políticas públicas educacionais de inclusão social de promoção da equidade e de combate as desigualdades raciais, sociais, culturais, gênero, sexual e geracional”. Isso porque, não há mudança de paradigmas sem que haja na escola mudanças que favoreçam a inclusão de todos e reconheçam a única coisa que há em comum em todas as pessoas: nossa natureza humana.
Não podemos, como pais e mães, abrir mão disso em função de valores que excluem pessoas e trazem tanto sofrimento social: até quando vamos ter meninas da candomblé apedrejadas? Gays assassinados? Negros humilhados? Mulheres estupradas?
Precisamos mudar esta realidade e, para isso, temos que ajudar as escolas nesta difícil tarefa de educar moralmente nossas crianças, garantindo que elas conquistem o que é tão urgente: autonomia moral.
Justo por isso, a professora Telma Vinha (2000) nos leva a compreender que para que a criança construa sua própria autonomia moral, que é a capacidade de governar a si própria, é necessário que ela esteja inserida em um ambiente de respeito mútuo, em que o autoritarismo do adulto seja minimizado, e os indivíduos que se relacionam considerem-se como iguais, respeitem-se reciprocamente (p.19).
É sustentada nesta crença que o Plano Municipal, em seu tópico 8.17, delegou à escola a necessidade de “desenvolver políticas permanentes de combate ao assédio moral, sexual e todas as formas sutis ou declaradas de machismo e racismo”.
Como pode alguém ser contrário ao combate do assédio em suas variadas formas? Como pode alguém ser contrário ao machismo, que vitimiza não apenas as meninas - permitindo que constituam identidades diminuídas - como também os meninos que precisam assumir determinados estereótipos masculinos para poderem, assim, ser reconhecidos?
É justamente em nome dessas formas de assédio – disfarçadas por machismo e racismo - que muitas crianças e jovens abandonam a escola e, com ela, o sonho de progredirem na vida. É num contexto de bullying, que meninos e meninas, por serem “diferentes”, vivenciam situações de sofrimento e, sem alternativa, abandonam a escola.
Foi compreendendo isso que o PME determinou, em seu tópico 8.18, que a escola deve “implementar, acompanhar, monitorar e avaliar, em regime de colaboração entre a União e o Estado, de acordo com a legislação pertinente, políticas públicas de inclusão social dos/das estudantes trabalhadores/as de baixa renda, das/dos estudantes negros,  indígenas, quilombolas, em diversidade de gênero, sexual, e das/dos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação”.
Observem que o texto trata, apenas, da inclusão daqueles que, por diversas razões históricas e sociais, foram marginalizados em nossa sociedade. Não há qualquer menção a transformar estas ações inclusivas em conteúdos escolares (como alguns disseram), até porque, não aprendemos a ser respeitosos apenas porque aprendemos o que é respeito. Contrário a isso, aprendemos a ser assim porque, no ambiente no qual fomos inseridos, o respeito se configurou como um valor legítimo e necessário. 
É por isso que os preocupados com a “ideologia de gênero” deveriam repensar, compreendendo que não há nenhuma ideologia neste documento que não seja a do respeito a todos como uma necessidade urgente e necessária.
Não há negação da existência de meninos e meninas, como afirmam algumas pessoas execráveis. Há sim, o reconhecimento de que há meninos que nãos e reconhecem assim, como também há meninas que se reconhecem de outra maneira. Não é ensinar ninguém a ser o que não é, mas respeitar e reconhecer as diversas formas como as pessoas são, o que é muito diferente.   
Até porque, é esta a função social da escola que, longe de reforçar práticas de exclusão, deve se posicionar rumo à inclusão social, à superação das desigualdades sociais, à valorização igualitária das várias culturas e ao desenvolvimento de todos, independentemente da sua orientação de gênero.
Precisamos acabar com esse ciclo vicioso que em nosso país se sustenta desde seu “descobrimento”: direitos diferentes para grupos diferentes. Isso apenas será possível quando a discussão sobre gênero, sobre raça, sobre diversidade for tratada de forma séria pelas políticas públicas, respeitando o direito que todos possuem a dignidade.
Vamos nos unir como mães e pais que somos? Sim! Vamos nos unir para, juntos, educarmos nossos filhos sob os ideais da igualdade, da solidariedade, do respeito mútuo e da empatia que são os únicos pilares para uma sociedade justa.
Que esses valores virem o texto das discussões, do assunto dos grupos de whatsApp, do dia-a-dia de nossa casa e das trocas que fazemos em nossas relações. Certamente isso, diferente desse caos que os reacionários criaram para barrar o PME, seria uma grande revolução.
Esse é o meu desejo: que o Tom seja capaz de olhar para todo e qualquer um como humano e que ele, numa sociedade mais respeitosa, seja visto sempre com olhar de humanidade.
     







domingo, 7 de junho de 2015

A birra, os pais e a educação que transforma

Dia desses conversava com uma amiga e ela reforçava o quanto é difícil educar nestes tempos atuais. Isso porque temos a impressão de que as crianças e jovens de hoje apresentam mais problemas de comportamento dos que os de antigamente: birras, desobediência, revolta, etc.  Bem, isso até que é verdade. Mas é preciso que sejamos capazes de refletir sobre como educar na contemporaneidade já que, os tempos passados não voltam mais.
Mais do que isso, é necessário que sejamos capazes de entender onde estamos errando e quais as formas possíveis de educar meninos e meninas para que construam uma sociedade diferente desta que nos está posta. Ah, certamente esse é o nosso sonho!
Para iniciar esta reflexão vou compartilhar uma das principais características da educação que dou ao Tomaz, justificando um pouco esta opção. Começarei, assim, destacando porque sempre lhe dou uma possibilidade de escolha no momento em que estou agindo com ele na perspectiva de modificar um comportamento inadequado.   
Pois bem... Aqui em casa é assim: quando o Tom quer brincar com novos brinquedos, por exemplo, eu oriento que ele guarde os objetos utilizados anteriormente. Quando ele rejeita eu lhe digo:
- Filho, escolha, ou guarda os anteriores ou não poderá pegar nenhum novo.
O que eu faço neste momento é dar a ele uma possibilidade de escolha ao invés de uma proibição imediata misturada com ameaça: se não juntar não vai brincar com mais nada, como fazem muitos pais.
Sim, compreendo que esta escolha é coercitiva, mas como adulto precisamos dar aos nossos filhos opções de escolha não sobre o que fazer (que nesse caso seria guardar ou não os brinquedos), mas sobre o que é possível fazer (dentre ações aceitáveis).
Quando decide não guardar, mesmo que ele chore, esbraveje, grite, eu não permito que continue pegando novos objetos e, nesse momento, ele perde a brincadeira não por uma decisão minha, mas por uma escolha dele, já que tinha a opção de guardar e permanecer na diversão.
Esse tipo de intervenção permite que ele cresça adquirindo algo que é necessário demais a vida: que nos responsabilizemos pelas consequências naturais dos nossos atos. Ora, se é escolha dele permanecer sem guardar os brinquedos, mesmo quando lhe damos a opção de agir de forma contrária, é preciso que ele sofra as consequências de suas ações, de suas escolhas, não por uma imposição minha, mas por uma opção dele.
Tão importante quanto isso é a forma utilizada para fazer a intervenção. Não grito, não esbravejo, não fico desesperada por toda a confusão causada pelo choro ou pela birra (que os adultos potencializam mais que as crianças). O meu papel é o de manter o equilíbrio,  já que sou a adulta da relação.
E quando ajo assim, controladamente, ensino ao meu pequeno algo que ainda lhe falta: controle sobre as suas próprias emoções, transformando-as em palavras, em formas mais evoluídas de resolução de conflitos do que os tapas e gritos histéricos tão utilizados por adultos que “educam”.
Se queremos ajudar as crianças no controle de suas birras, que nada mais é do que a vontade incontrolável de que tudo aconteça ao seu próprio modo, não podemos nós, os adultos, agirmos de forma birrenta dizendo, também, coisas do tipo: eu sei gritar mais alto que você, por exemplo!
E no momento em que ele, frustrado por não fazer exatamente o que quer (o que é natural já que está numa fase bastante egocêntrica), chora muito, eu sou empática com ele e lhe digo:
- poxa, filho, imagino o quanto você está chateado por não continuar pegando novos brinquedos para a brincadeira, mas agora você terá que parar porque foi assim que escolheu.
Nada de sermão excessivo, nem nada de oprimir os sentimentos dele. Por mais errados que estejam (e isso é para nós e não para ele), os pequenos continuam tendo o direito de ficar com raiva por terem sido contrariados.
Para que uma criança aprenda a respeitar as outras pessoas é necessário que ela se sinta respeitada naquilo que sente e isso não acontece como num passe de mágica. A mudança de postura apenas é possível num ambiente no qual haja relação de confiança com a autoridade, de modo que tendo construído por si um auto-respeito sejam capazes de proporcionar o tão esperado respeito pelos outros.
Certamente não são os castigos, as surras, os gritos ou humilhações na frente de outros que fazem das crianças seres educados e respeitosos. Contrariamente a isso, este tipo de repreensão apenas são formas de fazer com que nossos filhos cresçam como pessoas que, para se sentirem felizes precisam “mandar nos outros” ou serem mandados a todo momento.
Não estou dizendo, com isso, que temos que nos tornar amigos de nossos filhos. Ao contrário, o que as crianças precisam mesmo é que nós, os adultos, sejamos sujeitos que eles possam admirar e, por isso, a nossa educação deve pautar-se em princípios e não em coações.
Tenho certeza que um “bom tapa”, como julgam alguns, pode mudar rapidamente o comportamento, trazendo a paz imediata que os pais esperam. Mas, infelizmente (ou felizmente) essa ação não educa as crianças, fazendo-as aprenderem, apenas, que são sujeitos com pouco valor. Outra consequência: eles entendem que a violência se combate com violência e, por quererem ser iguais aos pais, adotam essa mesma postura em suas relações com os outros.
Enquanto essa mania de bater nos filhos ao invés de educá-los for legitimada, ensinaremos aos nossos filhos, apenas, que o que eles têm de mais precioso: o que sentem, o que pensam, o que são – não é importante. Como queremos, então, que respeitem e reconheçam as outras pessoas?
A grande lição que precisamos, enquanto adultos, é a seguinte: quando menos mostram respeito é quando nossos filhos mais precisam ser respeitados.
Concluindo: é preciso, sim, ser autoridade para nossos filhos. Disso não se pode abrir mão. Mas o tipo de obediência que devemos esperar deles deve pautar-se em princípios e não no autoritarismo. Nós, os pais, devemos educar moralmente as crianças. Somos responsáveis, sim, por inseri-las no mundo da moral. E para isso, devemos olhar para nossos filhos como quem ainda precisa aprender e isso nos ajuda a tolerarmos mais as suas falhas, acolhendo, por isso, suas incertezas, seus erros, seus medos e fracassos.
Por fim, como disse Betinho: se não vejo na criança uma criança, é porque alguém antes a violentou; e o que vejo é o que sobrou de tudo que lhe foi tirado.

Que nós, como adultos que somos, consigamos aprender a reconhecer na criança aquilo que ela é – sujeitos que precisam da nossa visão de mundo para construir as suas próprias formas de viver; e na educação uma possibilidade de formar seres humanos melhores que, assim o são, porque a vida e lhes permitiu!     

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Suavizar o Coração

Hoje li uma frase do Knost que dizia: “não é nossa função endurecer nossas crianças para que elas possam encarar um mundo cruel e sem coração. Nossa função é criar crianças que farão do mundo um lugar um pouco menos cruel e com mais coração”.
Este pequeno texto mexeu muito comigo e me levou a pensar na forma como temos concebido a educação das crianças, sempre focando no futuro (no que as crianças estão por vivenciar), fatalizando-o por um presente, na maioria das vezes, negativo.
- “Temos que deixar sofrer, para que ele fique forte”
- “Deixe ele se virar, porque no futuro ele não terá quem faça as coisas por ele”;
- “Eu prefiro bater no meu filho quando ele ainda é criança para que no futuro a polícia não precise bater nele” (esse é o tipo de afirmação que mais me mata!)
Nossa, esse tipo de situação é uma das coisas que mais me incomoda nessa minha "Viagem de Mãe", sobretudo porque evidencia o fato das pessoas acreditarem que só aprendemos através da dor e que o abandono é o que trará aprendizagem. Ademais, eu penso que é pelo fruto dessa crença que nós vamos construindo práticas educativas que, ao meu ver, mais se caracterizam por abandono afetivo e pouco ensinam aos pequenos sobre como lidar com a vida.
Um exemplo claro disso é quando vamos intervir para ajudar o nosso filho a solucionar um problema. Nestas horas, muito comumente, escutamos pessoas que nos repreendem dizendo: - “deixa ele se virar”.
-Ah, como assim se virar?
O que a criança precisa mesmo é encontrar elementos para solucionar seus problemas o que, dificilmente, conseguirá se estiver sozinha. Isso porque os pequenos, por possuírem um repertório ainda limitado de estratégias para solucionar os conflitos vivenciados precisam ser orientados pelos adultos para que se sintam seguros e consigam transpor suas dificuldades da forma mais assertiva possível. 
O Tom mesmo vivenciou isso dia desses. Ao andar no carro à noite ele gosta que deixemos a luz interna acesa. Sem me lembrar disso eu apaguei e ele, imediatamente, gritou um alto e sonoro NÃOOOOOOOOO!
Imediatamente eu lhe disse: Não se deve gritar assim com as pessoas, meu filho. Ele, meio que tentando entender o que acontecia, foi logo me dizendo:
-Então como é que se pede para apagar a luz sem gritar?
Nessa hora eu pensei o quanto as crianças precisam de nós para aprenderem formas mais assertivas de relacionamento e o quanto o fato de sermos nós, também, sujeitos com pouca habilidade sociais terminamos por contribuir para que se perpetue essa sociedade que educa filhos duros para uma vida dura.

Ao invés de gritar com meu pequeno ou bater nele (usando o argumento de que fiz isso para a polícia não fazer mais tarde) eu lhe expliquei como ele poderia falar e ele me respondeu na maior inocência infantil:
- Tá certo, mamãe, eu não sabia! Não foi malcriação.
Nessa hora eu tive a certeza do quanto eles precisam de nós, das nossas diretrizes e o quanto podemos, mesmo numa vida dura, educar filhos mais amáveis, mais cuidadosos e mais gentis.

Certamente, para isso, teremos nós, os adultos, que desenvolver estes aprendizados. Talvez um caminho seja abandonar estas crenças de que, por vivermos na dureza, precisarmos educar nossos filhos sempre com espinhos. Para uma nova vida, é necessário novas formas de vivê-la e para filhos mais amáveis é preciso de ações com mais cheiro e textura de rosas. 

domingo, 10 de maio de 2015

O que querem as mães?

A maternidade é uma atividade que dura a vida toda, sem folgas, sem férias ou final de semana. Por isso, mesmo sendo maravilhosa, é uma tarefa árdua e, muitas vezes, cansativa. Minha situação é muito particular, porque, por sorte e bondade divina. Tenho a minha mãe, que cuida diariamente do meu filho melhor do que eu seria capaz; minha irmã que é a madrinha mais amorosa e generosa que conheço; minha sogra que ama meu filho acima de tudo e se  dedica a ele sem medidas e Janaína que é um anjo que cuida de todos da nossa família. Estas mulheres, com certeza, fazem da minha maternidade uma situação mais delicada do que a maioria das mães vivenciam, fazendo com que o cansaço do dia-a-dia seja menos exaustivo.
Entretanto, nem todas as mulheres têm a sorte de contar com um time de peso como eu e, por isso, no dia de hoje, dia das mães, eu peço a todos que olhem para as que estão ao nosso redor, percebendo que, muitas vezes, tudo o que elas queriam era um pouco de ajuda. 
Sobre isso compartilho aqui um texto de uma ex aluna e nova mamãe – Rafaela Lemos -, que diz muito bem sobre esse desejo de quem vive atropelado pelas muitas tarefas da maternidade. 
A maternidade tem sido a fase mais difícil da minha vida...Pela falta de valorização da maternagem... Pois, quando parimos um filho, as pessoas esquecem que somos humanas e que temos limitações, cansamos, temos dores, adoecemos, e tem dias que estamos "nada para nada"... Mas, quando se é mãe, não se pode dar o luxo de simplesmente vegetar em dias difíceis como esses que citei... Você arranca forças sabe Deus de onde, e vai para a labuta (SIM, mãe trabalha muito mais, do que um trabalho convencional fora de casa.)
Quando se é mãe, não existe um talvez, você tem que ser capaz de fazer várias coisas ao mesmo tempo, e não priorizamos a coisa mais importante, o nosso futuro, o nosso eu, pois a partir do momento em que nos empoderamos da essência do ser MÃE, o nosso filho, a vida dele, o futuro dele é que passa ser o mais o importante, a alimentação, as fraldas, a casa, as roupas, as brincadeiras... E lá no fim do dia, um banho e uma capotada na cama é o que resta para as MÃES, em muitos dias dessa aventura proporcionada pela maternidade.
E nessa semana em que economicamente foi destinada para as mães, espero que as pessoas ao redor dessas mães permitam-se desabrochar dentro de si o desejo de ajudar a resgatar a vida social dessa mãe, seja para ela ir a um curso, a um salão, a uma academia, ou simplesmente que ela tenha um momento só dela em seu quarto sozinha com ela mesma...
Não que presentes materiais não sejam bem vindos, mas ele só será dado naquele dia... E os outros tantos dias do ano em que somos mãe? A ajuda, o companheirismo, a parceria resultará em grande recompensas e lembranças...
Melhor do que presente é um “eu te ajudo a dar o banho”, “eu te ajudo a trocar a fralda”, “deixa que eu alimento ele”, “hoje eu lavo a louça”, “eu estendo as roupas e retiro do varal”, “eu fico com ele enquanto você vai estudar”, “eu fico enquanto você vai se cuidar”... Atitudes como essas, nem que seja uma vez na semana voluntariamente, aquela assim de coração, sem ter sido pedida... Nossaaaa vale muitoooo!!!
É, talvez  o que muitas mães ao redor de vocês quisessem ganhar neste dia das mães era isso: uma ajudinha para levar a maternidade adiante, pois, embora seja mágica, é muito cansativa.

Eu, por sorte, nem posso fazer este pedido. Assim, neste dia das mães, me resta apenas agradecer. 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Vamos brincar para se divertir?

Dia desses fui a mais uma festinha infantil, programa quase semanal quando você tem filho pequeno. Além de bolo, sacolinhas e tudo mais que compõe o aniversário de crianças, a festa contava, também, com duas recreadoras que se esforçavam ao máximo para que as crianças ficassem bem ocupadas (contribuindo para o “sossego” dos pais sentados em suas mesas).
Na tentativa de atrair os pequenos, uma delas dizia em alto e bom som:
- Quem quer brincar para ganhar presente?
E as crianças, em euforia, respondiam:
- Eu!!!
Ao ouvir o diálogo entre a recreadora e as crianças eu fiquei, de imediato, estarrecida:
- Como assim brincar para ganhar presente? A gente brinca para ganhar presente ou a gente brinca para se divertir, ser feliz e fazer amigos?
Sim, eu sei que os “presentes” fazem parte de muitas brincadeiras e são recompensas ao desempenho em algumas provas... mas isso, em minha opinião, não pode ser a finalidade. A criança não pode querer brincar para ganhar presente, porque, se assim o for, como faremos quando eles não existirem? Como faremos para que elas descubram o que realmente tem valor na vida?
O mais impressionante, ao meu ver, foi constatar que as pessoas estavam ali se quer ouviram com estranheza a fala da animadora e, enredadas naquela cultura da necessária recompensa, foram incapazes de problematizar os valores que estavam presentes naquela fala.
Ainda pior, o que eu vi foram os próprios pais quase empurrando os filhos que resistiam ao presente em direção ao espaço reservado para as brincadeiras. E, numa tentativa de fazer as crianças engolirem de goela abaixo a obrigação de brincar, eles diziam:  
- Vai lá, filho, ganhar presente.
Sinto verdadeiramente que a intenção dos pais naquele momento era estimular os filhos a participarem. Mas, a fala “Vai lá, filho, ganhar presente” reflete algo muito freqüente nos dias de hoje, a banalização da espontaneidade; a compra de tudo, até das brincadeiras livres. Brincar, sozinho ou em grupo, tem sido encarado sempre como uma atividade que requer muitas coisas: requer uma recreadora que direcione o que precisa ser feito, requer presente como recompensa ao “sacrifício” de perder tempo correndo para lá e para cá dando alguns minutos de sossego aos adultos que podem, graças ao presente, acessar as redes sociais e postar fotos na festinha livremente.
O que isso diz sobre nós? Que estamos precisando repensar a forma como temos educado as crianças; que precisamos, sobretudo, repensar os valores que são emitidos junto aos sons das palavras que utilizamos para enconrajá-las...
Pode demorar mais tempo dizer: “vai lá, filho, pode ser muito legal participar desta brincadeira”. “Que tal experimentar”? “Se não gostar você sai”.  Fazer esse tipo de problematização sobre uma expressão aparentemente tão corriqueira nos ajuda a refletir sobre de que forma estamos, também, lidando com o divertimento dos nossos filhos.
Nem tudo precisa ser comprado. O prazer de brincar livremente e ser feliz não pode ser recompensado por uma bolinha de sabão, uma bola ou qualquer outro bem material.
O que fazemos quando nossos filhos não querem fazer algo que pode ser bom para eles? (Sim, usei pode e não é, porque nada é sempre positivo, até mesmo brincar).  Refletimos com eles ou tentamos comprá-los? Permitimos que eles experimentem ou decidimos por eles?
Precisamos parar de recompensar as crianças por tudo. Não podemos brincar para ganhar presentes, porque a maior recompensa da brincadeira é o próprio prazer que ela traz. Quando não percebemos isso, invertemos a hierarquia de valores, colocando o prazer do presente acima do prazer das relações. Daí para a banalização das relações é um pulo mínimo. Na verdade, já é a própria banalização...
Vamos ajudar os nossos filhos a entenderem que brincamos para nos divertir e não para ganhar algo. Certamente esta será uma grande aprendizagem para eles. Aprender que a vida pode ser simples e que bolinha de sabão pode ser feita numa garrafa velha com água e sabão não tem preço. 


domingo, 15 de março de 2015

Abracadabra

Hoje pela manhã estava brincando com o Tom quando lhe disse:
- Eu sou a mulher aranha e vou lhe prender em minha teia (a fala foi seguida do gesto de que eu estivesse arremessando a teia nele).  Em seguida, dando prosseguimento, lhe disse: - como fará para se soltar?
Olhando para mim ele respondeu:
- Eu me solto dizendo Abracadabra. (imitando uma mágica ele faz o gesto de se soltar). Em seguida, começou a correr como se estivesse livre.
Para uma leitura mais desatenta isso pode parecer uma grande bobagem, mas não é. Esse tipo de brincadeira, nomeada de Jogo simbólico (o famoso faz-de-conta), é o momento no qual a criança pode  representar diferentes papéis sociais, expressar suas necessidades, medos, desejos e sonhos.
É através desse tipo de brincadeira que o Tom tem a oportunidade de desenvolver a sua identidade através do auto-conhecimento, da imaginação, da  socialização e da psicomotricidade. Isso porque, além de ter que criar estratégias criativas para se livrar das teias, o que é uma ótima oportunidade de desenvolvimento cognitivo, ele tem que agir corporalmente para se desvencilhar das teias imaginárias. 
Quando brinca de faz-de-conta, o Tom (e todas as outras crianças) experimenta emoções diversas a todos os indivíduos, o que a leva a aprender a respeitar regras e melhora seu convívio com outras pessoas. Isso porque, experimentando, vendo, manipulando as coisas, ele descobre a possibilidade de dar forma ao mundo de acordo com suas impressões passando não só a evocar e registrar fatos na memória, mas a recriá-los.
É por isso que devemos, sempre que possível, alimentar a imaginação dos pequenos ao invés de oprimi-la. Como pais, devemos estimular para que as crianças possam dar sentido as experiências vividas, através de experiências que não viveriam na vida real.
E enquanto o Tom quiser viver no mundo da fantasia aqui em casa ele terá espaço para vivenciar. Se hoje o Abracadabra conseguiu livrá-lo da teia da mulher aranha a mágica poderá, amanhã, libertá-lo de outras situações, ajudando-o a seguir em frente no enfrentamento dos problemas da vida real.

Isso é o que importa!!!

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O H maiúsculo deveria ser de hombridade

Ontem vi um vídeo que me fez mal: uma mulher, embriagada, sem blusa, sendo alisada por homens de forma animalesca. O conteúdo do vídeo me causou mal, porque ver uma mulher vulnerável, sendo abusada por homens sem nenhum pingo de hombridade me fez questionar o valor da humanidade e a forma como temos nos relacionado com as pessoas.
Isso porque, a pessoa que me enviou o vídeo destacava a embriaguez da mulher quando, ao meu ver, o grande problema da cena era a falta de generosidade das pessoas ao redor – mulheres e homens, que se aproveitavam de uma situação para abusar do corpo da moça. Os peitos de fora não eram nada (já que eram dela e ela faz o que quer com eles), mas o que me deprimiu foi o fato de julgarem que ela merecia ser abusada por estar sem blusa e bêbada em ambiente público.  
Vendo aquilo e refletindo sobre o que via pensei: que vergonha eu sentiria se me filho estivesse ali, abusando da garota de maneira covarde; que vergonha eu sentiria se eu fracassasse tanto como mãe ao ponto de educar um filho oportunista e desrespeitador que ao invés de ser um homem - com H de hombridade - fosse um mero animal irracional que ignora a condição humana diante de uma embriaguez.
É por isso que depois desse vídeo eu me esforçarei cada vez mais para que meu Tomaz, hoje ainda com três anos, possa se desenvolver num ambiente no qual a maior manifestação de masculinidade seja o respeito ao outro independentemente das “oportunidades” e do que o outro esteja fazendo.
Me esforçarei para que ele entenda que se aproveitar de uma mulher ou de um homem bêbado é um sinal de pouco caráter e que nós NUNCA devemos sentir prazer as custas da exploração alheia, sobretudo a sexual. Lutarei, ainda, para que Tomaz saiba, sempre, que qualquer tipo de relação com outra pessoa só pode ser prazerosa se for consentida e que o consentimento passa, necessariamente, pela capacidade de decidir.
Continuarei me esforçando para que o Tomaz saiba que numa cena daquela, ao invés de seguir o movimento da maioria, ele deve agir para acabar com uma coisa tão absurda e que, justo por isso, ao invés de alisá-la ele poderia ajudá-la a sair dali.
Ensinarei ao meu filho, ainda, que vergonhoso não é estar de peitos de fora, mas é, sim, se aproveitar disso julgando que o corpo alheio me pertence e pode ser usufruído sem nenhum pudor.
E ao ensinar estas coisas ao meu pequeno eu espero, apenas, que ele se torne um homem e que, justo por ser da espécie humana, ele olhe para todos os seus semelhantes vendo a si mesmo e respeitando-os em sua integralidade. Porque como mãe, o que eu preciso ensinar ao Tomaz é que aquela mulher deveria ter sido respeitada não apenas porque ela merecia respeito, mas, sobretudo, porque o meu respeito não depende da ação alheia, mas dos valores que nos cultuo em mim mesma.

E como eu não estava lá para tentar ajudar a moça, faço a minha parte criticando o ato e não compartilhando o vídeo. Porque vergonha mesmo eu sinto daqueles homens e de todos os outros que compartilham a cena achando-a engraçada e não daquela mulher que longe de ser a culpada pela cena grotesca, era vítima de uma cultura machista e heteronormativa como a nossa.