domingo, 11 de fevereiro de 2018

Educar é fazer escolhas

Educar é tomar decisões, sempre. Não tenho a menor dúvida com relação a isso. Mas como tomamos as decisões na hora de educar, visto que, nem sempre, as recionalizamos? Pensei muito sobre isso ontem observando Tomaz entrar no mar com o pai dele.
A cena foi: Os dois se dirigiam, de mãos dadas, para o mar. Diante de um corredor de sargaço, Tomaz pede ao pai que lhe ponha no colo. Neste momento, o pai tem que decidir: encoraja o filho a enfrentar o medo e ultrapassar o sargaço ou acolhe a criança e seu medo e coloca Tomaz no colo durante a ultrapassagem? A cena demorou menos de 10 segundos, mas o suficiente para que eu a olhasse cheia de admiração. Não tinha dúvidas do que aconteceria: o pai acolheria o filho no colo.
Diante do enfrentamento pensei: e se ele tivesse encorajado Tomaz a enfrentar os sargaços, qual tipo de contribuição ele teria dado ao nosso menino? Certamente, para alguns, ele teria ajudado Tomaz a reforçar sua coragem diante da vida, o que seria positivo para o enfrentamento de desafios futuros. Sim, não tenho dúvidas quanto a isso e não tenho dúvidas, também, que a coragem é uma virtude importante diante da vida. Sobretudo se pensarmos com Comte-Sponville quando ele afirma que a coragem é a capacidade de superar o medo e a covardia é se entregar ao medo. Digo isso para afirmar que, uma outra pessoa vendo a cena, pode ter pensado que o pai embotou a coragem e estimulou a covardia, não permitindo que Tomaz enfrentasse seu medo sozinho.
Mas como já disse, educar é fazer escolhas e, para nossa família, a coragem só precisa ser estimulada quando é percebida do ponto de vista moral e se põe em favor do outro. A coragem dos valentões não nos interessa e, com isso, acolher Tomaz diante de seu medo é algo mais relevante do que torná-lo um valentão.
Acreditamos que quanto mais segura for uma criança, mas ela terá coragem diante da vida e, para tal segurança, é importante saber que não podemos enfrentar tudo e, muito menos, fazer tal enfrentamento sozinho. A coragem não é ausência do medo, mas, sim, a capacidade de enfrentá-lo, de dominá-lo. Saber que há um colo para subir, vez ou outra, é muito importante na vida e o que Tomaz aprendeu ontem no colo de seu pai foi, ao meu ver, muito mais importante do que a aprendizagem forçada de enfrentar o desconhecido (neste caso em particular o sargaço) de toda e qualquer forma.
Me deu um orgulho danado do pai que escolhi para meu filho. Me deu um orgulho danado das decisões que estamos tomando, juntos, na educação dos pequenos. Sei que educar é fazer escolhas e que, nesta estrada da vida, nossas escolhas poderão ser equivocadas. Mas sei, também, que mesmo erradas, tais decisões estarão amparadas num amor sem tamanho e na crença de que acolher o outro é sempre mais importante do que abandoná-lo a própria sorte.

É sobre isso que vamos decidindo, é sobre estas crenças que vamos caminhando. Espero que com a chegada dos nossos dois pequenos que estão a caminho, Théo e Thales, consigamos manter nossas escolhas pautadas neste amor tão grande que nos une e nos encoraja a decidir sempre. 

domingo, 23 de julho de 2017

É possível ensinar empatia aos nossos filhos?

Ontem à noite assisti ao filme Nise, no coração da loucura. Enquanto via o filme eu refletia muito sobre como nossas experiências de vida são (ou não) humanizadoras. Sim, como uma boa piagetiana sei que não somos, unicamente, produto do meio. Mas sei, também, que para compreender os comportamentos morais ou não dos homens, torna-se necessário saber a perspectiva ética que eles assumem. Dessa forma, é preciso compreender que resposta eles darão à pergunta feita pela ética (que vida viver?), para compreender as formas como agem e desejam ser reconhecidos.
Nesse sentido, Levando em consideração que a perspectiva ética adotada pelos indivíduos não é formada exclusivamente por questões psicológicas, eu pensei muito nos aspectos culturais e sociais que compõem os modos de viver a vida boa almejada pelo plano ético. Para pensar melhor sobre isso, recorri ao grande Yves de La Taille quando nos leva a pensar que numa sociedade na o sucesso é tão importante, acaba por convencer seus indivíduos de que somos acima e para além dos outros. Isso pode levar os sujeitos a um individualismo exagerado, e, por conseguinte, a pouca experiência em torno da empatia. Sim, este autor nos leva a entender que os valores difundidos culturalmente constroem “modelos” de felicidade, e, com isso, penso que as nossas experiências podem ser sim humanizadoras (ou afastar todas possibilidade de humanização).
O filme me tocou demais como ser humano e, como não poderia ser diferente, me tocou como mãe. Pensei em como eu tenho oportunizado meu pequeno Tomaz a, também, se humanizar e como eu tenho permitido que ele viva com o outro reconhecendo-o, sentindo-o, respeitando-o, ou seja, o quanto ele é capaz de ser empático. Sei que já faço muitas coisas na sua educação neste sentido, mas, sei, também, que ainda há muito a fazer.
Eu quero muito, do fundo do meu coração, que Tomaz seja capaz de experimentar a empatia, capacidade que eu busco, permanentemente, ao longo da minha vida. Mas o que seria empatia? Na prática, viver a empatia equivale a, metaforicamente, “calçar os sapatos” do outro. Para La Taille (2006), este sentimento caracteriza-se pela capacidade humana de perceber os estados emotivos alheios, afetando-se emocionalmente por eles. Não basta apenas saber o que os outros sentem, mas, sim, afetar-se com isso. A empatia, então, funciona como um “operador emocional”, passível de motivar uma pessoa a preocupar-se com os outros, tendo uma íntima relação com a moral, notadamente com o altruísmo.
Por isso, eu penso que não podemos abrir mão de educarmos nossos filhos para empatia. Mais do que educá-los para submissão cega (que muitos julgam positivamente: esta criança é muito obediente) ou para “respeitarem os mais velhos”, precisamos educar as crianças para respeitem a todos (incluindo elas próprias), a fim de que superem comportamentos que precisam ser combatidos, tais como o preconceito e a violação dos Direitos Humanos.
Em geral, as variáveis ambientais favorecem o desenvolvimento da empatia quando o ambiente no qual a criança está imersa é cooperativo, oferecendo a ela uma variedade de oportunidades para experimentar e expressar diferentes emoções, satisfazendo as suas necessidades físicas e emocionais, desestimulando a preocupação excessiva por si mesma (MOTA et al, 2006).  
Algumas ações dos pais ou cuidadores contribuem muito para que a criança possa aprender empatia. Por exemplo, reconhecer o sentimento das crianças sem banalizá-los ou negá-los, ouvindo e compreendendo as expressões de mal-estar que ela sente, faz com que a criança se sinta segura, sendo, portanto, precursor da empatia, uma vez que desperta o interesse da criança por quem se ocupa dela. Por outro lado, a negação às expressões de mal-estar e impotência da criança e a rejeição em resposta às suas necessidades relacionam-se negativamente à empatia infantil, já que promovem a preocupação autocentrada, ao invés de fortalecerem senso de segurança.
Pensando em como ajudar nossos filhos e filhas a serem mais empáticos, fiz uma série de reflexões em torno a ações que podem ajudar numa educação que busca, efetivamente, a formação de filhos empáticos. São elas:
1-      Dirigir a atenção da criança ao mal-estar do outro em momentos nos quais ela fere ou magoa, fazendo-a se imaginar em seu lugar;
2-      Favorecer à criança que foi ferida que possa falar sobre como se sentiu diretamente para a outra criança que a feriu;
3-      Utilizar estratégias educativas que não se baseiem em maus tratos, levando sempre a criança a refletir sobre como seu comportamento afeta os outros. É preciso pensar em suas ações, pois isso favorece a empatia.
4-      Não fazer uso de estratégias coercitivas e violentas na educação das crianças, posto que a coerção e ameaça de punição, com o objetivo de melhorar o comportamento, podem promover a preocupação voltada para as consequências externas e prejudicar o comportamento empático. Ainda, o uso de castigo físico repetido parece estar relacionado a um padrão de comportamento agressivo da criança em suas outras relações.
5-      Um estudo desenvolvido por Barnett, Thompson e Pfeifer indica que oferecer à criança oportunidades para cuidar e ajudar os outros faz com que ela perceba a sua capacidade para aliviar o mal-estar, inclinando-a a empatizar com os coleguinhas menos competentes.
6-      A atribuição de qualidades positivas é outra boa estratégia para promover o autoconceito pró- social. Desse modo, é importante valorizar as boas ações da criança, evidenciando o valor em seus comportamentos empáticos.
7-      Estimular a criança a perceber os outros como semelhantes pode contribuir para o desenvolvimento e a expressão da empatia. Com isso, devemos valorizar a diversidade e estimular na criança o reconhecimento de que todos somos semelhantes.  
8-      Pais e mães empáticos tendem a ser mais responsivos aos sentimentos das crianças, além de servirem como modelos de comportamento.
9-      Usar filmes e desenhos infantis para chamar atenção ao que os personagens vivem e sentem também pode ser uma boa estratégia para que a criança consiga se inclinar aos estados afetivos alheios.
10-  Valorizar mais as pessoas que as coisas; evidenciar a importância de promover o bem-estar alheio e, ainda, favorecer a generosidade e a caridade podem ser outras questões importantes.


Certamente este processo humanizador de nossos filhos precisa, sim, ser um processo humanizador nosso também. Nunca é tarde lembrar que em matéria de ética só pode ensinar que possui. Assim, se queremos, realmente, formar filhos empáticos, deveremos exercitar a nossa empatia para com eles no momento que os educamos e interagimos com os outros.


domingo, 9 de julho de 2017

Por que a adoção demora tanto?

Como a maioria já sabe, estamos num processo para ingressarmos no Cadastro Nacional de Adoção há mais ou menos 8 meses. Neste período de quase uma gestação, já enfrentamos angústias referentes ao que consideramos morosidade do processo (foram 7 meses para a primeira entrevista), já enfrentamos tristeza pelas dificuldades que aparecem e, no post de hoje, falarei sobre nossa surpresa em sabermos que há muito mais casais para adotar do que crianças em condições de serem adotadas.

Por mais estranha que esta informação pareça, na nossa primeira entrevista fomos informados de que hoje não há nenhuma criança no cadastro-CNA em condições de ser adotada para o perfil que escolhemos (crianças até 6 anos de qualquer sexo ou localidade do país). Isso porque, segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, a adoção somente pode acontecer quando a família de origem for destituída do poder familiar, os pais biológicos forem desconhecidos ou, em sendo estes falecidos, não existir parentes disponíveis a acolher a criança.

Desse modo, a maioria das crianças que hoje estão abrigadas ainda permanecem com vínculos jurídicos com suas famílias de origem e, para nossa justiça, a preferência é que se priorize o seu retorno para o convívio com esta família. A preservação dos vínculos familiares é um dos aspectos fundamentais do acolhimento de crianças e adolescentes, fundamentado na Constituição Federal, no Estatuto da Criança e do Adolescente, no Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa dos Direitos de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária, nas Orientações Técnicas: Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes e na Lei da Adoção.

Confesso que, vivendo a experiência vagarosa de me tornar uma pretendente à adoção (embora esteja há 8 meses neste processo, ainda não ingressei no CNA) sou acometida de um sentimento bastante ambivalente: compreensão e revolta. Explico-me melhor: compreendo a importância da convivência com a família de origem e a necessidade de ser respeitar o amparo legal que prioriza a preservação dos vínculos familiares, mas, ao mesmo tempo, me indigno que se passe tanto tempo tentando resgatar vínculos que justifiquem o retorno de uma criança para uma família que, por vezes, não a quer ou não tem como cuidar dela.
                                                                   
Enquanto isso, mais de 4 mil casais encontram-se, hoje, em condições de adotar uma ou mais crianças, desejosos por constituírem uma família e, diante do cenário atual, não conseguem. Isso porque mais da metade das crianças abrigadas não podem ser adotadas. Com isso, o tempo passa, as crianças crescem e muitas delas não conseguem ser adotadas (já que a adoção tardia ainda é muito tímida no Brasil) nem, tampouco, voltar às suas famílias de origem.

Muitas campanhas têm sido criadas estimulando os casais a adotarem crianças mais velhas. Acho muito válida a ação. Entretanto, isso é insuficiente. É preciso agilizar o processo. É necessário que estudos sejam realizados e publicados esclarecendo como tem sido o retorno das crianças às suas famílias e como tem se dado o desenvolvimento afetivo, cognitivo e social dessas crianças que regressam aos seus lares de origem.  

Isso porque boa parte das crianças e adolescentes que estão em abrigos lá estão por terem seus direitos violados, sofrendo abandono, risco pessoal/social, negligência de seus pais/responsáveis, carência extrema de recursos, abandono, violência doméstica, dependência química, vivência de rua e a orfandade. Neste sentido, são comuns as dificuldades para a reinserção familiar em decorrência de episódios de ameaça ou violação dos direitos de crianças e adolescentes, tornando-se urgente que pensemos em formas mais eficientes de garantir um direito fundamental às crianças: direito a um lar e a uma família.

Falo isso por ter vivido ontem meu primeiro encontro no Grupo de Estudos e Apoio à Adoção (GEAD Recife). Nele, pudemos ouvir depoimentos de 04 pessoas adotadas que hoje são adultos extremamente gratos à possibilidade de terem vivido em suas famílias afetivas. Família não é a consanguínea (não em minha opinião), mas, sim, aquela em que cuidamos e somos cuidados, amamos e somos amados, respeitamos e somos respeitados.

Por que negar isso a uma criança por tanto tempo em nome de preservar vínculos com pessoas que, nem sempre, podem ser chamadas de família? Muitas vezes, as situações que levaram à perda do poder jurídico da família em relação à criança podem, ainda, não ter sido superadas e podem, inclusive, nunca ser. Desse modo, levanto outra questão: qual o tempo ideal em que devemos manter a busca pelo reestabelecimento dos vínculos?

Não tenho resposta para estas questões. Só tenho um desejo imenso de que as crianças e adolescentes deste país sejam sempre tratados como prioridade. Se for melhor para elas, de fato, que os vínculos familiares sejam mantidos, desejo que o Estado consiga fazer a reintegração familiar eficientemente.


Caso o melhor para estas crianças seja a aquisição de uma nova família via processo de adoção, desejo que o Estado repense as políticas atuais e torne o processo mais célere, a fim de que tantas famílias dispostas a amar uma criança tenham a possibilidade de doar este amor.

domingo, 18 de junho de 2017

O mundo é de agora em diante

Muitos aqui já sabem que nossa corrida para aumentar a família é grande e árdua. Como convivemos com o fantasma da infertilidade e, ao mesmo tempo, desejamos muito que a família cresça, contamos com a persistência de quem quer muito mais filhos e vai atrás das possibilidades.
Já fizemos de tudo: simpatia, remédios naturais, posições mirabolantes que podem favorecer a gestação, etc. Também já adotamos o caminho da medicina e fizemos muito tratamento para engravidar, passando por longos estresses que só conhece quem faz milhares de ultrassonografias por mês para acompanhar a ovulação e tentar acertar com os poucos óvulos que possui (Pois é, o que parece fácil para muitos é, para alguns, verdadeira loteria).
Desde o ano passado, decidimos percorrer outras estradas e tomamos a decisão de ampliar a família via uma adoção, gestando em nossos corações a espera por mais uma criança (ou duas, quem sabe?!) que chegará para aumentar o amor que existe em minha família e que deseja tanto ser vivido ao lado de mais gente.
Esta semana estamos vivendo um momento especial neste processo: será nossa primeira entrevista depois de uma longa espera de mais de um semestre. Para quem está com o coração cheio de amor e ansiedade, estes meses pareceram anos e eu, Pery e Tomaz aguardamos este dia cheios de expectativa para sabermos como será daqui para frente: ainda demora muito? Será rápido? Saberemos em quanto tempo quem será nosso(a) filho(a)?
Estas questões não têm saído de minha cabeça e a minha imaginação tem ido a mil pensando nesse filho (a): sua idade, seu sexo, suas preferências, gostos, desejos e expectativas... Sabemos que numa adoção o caminho é de mão dupla: enquanto estamos aqui na expectativa pela chegada deste(a) filho(a) ele(a) também está, em algum lugar, nos esperando.
É pensando sobre isso que decidi que escreveria um cordel para esta criança que nós esperamos e que, certamente, também, nos espera. Para este filho, que ainda se encontra em nosso ventre afetivo, de quem não sabemos nada, mas já amamos tanto, dedico estas palavras de amor que habitam em meu coração desde o dia que lhe desejei a primeira vez.




Te esperando

Neste dia de tanta espera
Por tu que já és tão amado
Queremos sempre que saiba
Que por nós já és desejado
Como filho, como irmão
Como sobrinho, de coração
És por todos muito esperado.


Saiba, isso não é só um texto
Também não é só uma poesia
Tudo que aqui lhe digo
Reflete a minha alegria
Pedindo a Deus discernimento
Pra falar desse sentimento
Da forma como eu queria

Por isso te digo meu filho
Ou serás minha filha amada?
Isso bem pouco importa
És a nossa criança esperada
Para quem daremos carinho
Encheremos de beijinhos
Nessa família abençoada

Seremos teus melhores amigos
Seremos, também, teus protetores
Compartilharemos tuas alegrias
Dividiremos as tuas dores
Saiba, amada criança
Nunca perderemos a esperança
De que sejamos teus guardadores

Ainda te digo será pra sempre
Pois te prometo amor materno
Receberás de todos nós
Um sentimento que será eterno
Pois um filho pode vir da gente
Ou chegar bem de repente
Despertando amor fraterno

O que vale mesmo é o amor
E que tenhamos a quem amar
Só quero, meu filho amado
Que consigamos te adotar
Pois é este nosso desejo
Darmos e ti mais que um beijo
Em nossa família terás lugar

Não é um lugar qualquer
Mas um espaço bem planejado
Serás nossa criança
Filho, irmão... bem desejado
A quem ainda não conhecemos
De ti nada sabemos
E mesmo assim já és amado

Filho ou filha não é de sangue
É fruto de uma decisão
De uma escolha de dar amor
Desses, no fundo do coração
Por isso te demos à luz
Ou és tu quem nos reluz
Esse amor que é imensidão?

Saiba que nosso sangue
É completamente indiferente
O que vale, meu querido
É o amor que tem na gente
Pois para mim a maternidade
E pra teu pai a paternidade
Tem a ver com o que se sente

Serás um pedaço de nós
Onde para sempre iremos estar
És a prova de que o amor
Não vem do fato de poder gerar
Basta que estejamos aberto
Pois nem sempre o céu é perto
Que presente é te adotar

Sabemos que não é só isso
Há algo que vai mais além
A adoção é uma via dupla
Quem adota quem? 
Todos vamos nos adotar
Decidindo nos amar
Os pais e filhos também

Temos certeza vai ser necessário
Algum tempo esperar
Para que tudo entre nós
Possa aos poucos se ajustar
Te daremos todo o tempo
Para que construas um sentimento
E seja capaz de nos amar

E assim vou terminando
Esperando esta alegria
Deste dia tão esperando
Quando iluminarás meu dia
Para te dar o verdadeiro
Um amor tão por inteiro
E calor em noite fria

Chega logo
Estamos te esperando
A muito tempo já estamos
Por aqui te desejando
Para de ti poder cuidar
Dar carinho, acalentar
Estamos só lhe aguardando







domingo, 4 de junho de 2017

Ajudando seu filho a se alfabetizar

                                             


Aqui em casa estamos em processo de alfabetização. O Tom começou, pouco a pouco, a compreender a relação entre sons e letras, e a compreender particularidades do sistema de Escrita Alfabética.
Meu esforço, como mãe e professora, não é de fazer o papel da escola, já que isso não me cabe, mas de criar um ambiente em casa que favoreça as conquistas do meu filho e contribua com seu desenvolvimento.
Para isso eu sigo algumas dicas que toda mãe pode fazer em casa e, com isso, vou estimulando sem cobrar de meu pequeno mais do que ele pode me dar. Não podemos esquecer que a infância não é uma corrida contra o tempo e que não é necessário que a criança leia e escreva rapidamente. A leitura e sua aquisição não é uma corrida na qual quem chega na frente vence. É preciso que este processo seja respeitoso a fim de que os pequenos estabeleçam uma relação prazerosa com a leitura.
Pensando nisso, eu faço:

1-     Reconheço que o mundo é letrado e exploro isso com meu Tom. Mostro para ele as placas, os nomes que estão escritos nos lugares. Exploro palavras que possuem escrita igual e/ou diferente. E faço isso com qualquer palavra, não apenas aquelas que julgo simples ou acho que ele consegue. Não acredito que a criança aprende a ler porque as palavras são simples, mas, sim, porque as palavras fazem sentido para ela. Para explorar o letramento tudo é válido: pacotes de bolacha, placas, outdoors, letreiro de loja, etc.
2-     Brinco muito com ele usando jogos pedagógicos. Faço brincadeiras com letras móveis que Tom chama de letras mágicas. 


     Também fazemos bingo de palavras, fazemos jogos de rima (essa fazemos muito no carro indo para escola). Vamos falar palavras que rimam com irmão: macarrão, feijão, manjericão... e também brincamos de palavras que começam iguais: bolo, bola, bolacha, boboca... Gosto muito deste da imagem a seguir. 
                                        Resultado de imagem para bingo de letras

3-       O ajudo nas tarefas de casa. Faço perguntas que vão além do enunciado, promovo reflexões sobre a língua, a partir de questões como: o que há de igual nestas palavras? O que há de diferente?


4-     Leio muito para ele. Leio, sobretudo, livros que brincam com a sonoridade das palavras. Como jogamos muito com os sons das palavras, ele ama quando percebe isso nos livros. Uns que ele adora são os  da Sylvia Orthof: Não confunda, Assim Assado e Você Troca?


5-     Recito muitos poemas e o ajudo a recitá-los também. A sonoridade das poesias ajuda muito no desenvolvimento da consciência fonológica. Há um tempo atrás, enquanto estudava a cidade do Recife, ele me perguntou: 
                                               - Mamãe, qual o bairro da minha avó? 
        Ao escutar eu dizer que o bairro era espinheiro ele me saiu com essa: É parecido com a escola de Bernardo: Maciel Pinheiro. 
6-     Tenho sempre no carro os CDs da Bia Bedran e coloco as histórias para ele ouvir. Como, quase sempre, as histórias dela trazem canções, eu brinco de trocar palavras da música por outras parecidas. As vezes ele troca por umas que parecem no começo e, as vezes, quando parece no final.
7-     E por fim, eu tento encantá-lo com o mundo das letras para que, maravilhado, ele queira dominá-lo.  


Termino com uma frase de Rubem Alves sobre o tema e que tem servido para que eu tome cuidado nesse processo de alfabetização de meu pequeno: O prazer da leitura é o pressuposto de tudo mais. Quem gosta de ler tem nas mãos as chaves do mundo. 



quinta-feira, 1 de junho de 2017

O Fantasma da Infertilidade

Lidar com o fantasma da infertilidade é algo muito difícil, e não há, para quem passa por este problema, nada que amenize a angústia e o sofrimento vivido. É muito desagradável quando compartilhamos com alguém a nossa dificuldade em engravidar e escutarmos coisas do tipo:
- “Você ainda é nova!””
- “Você vai conseguir” (sobretudo quando a tentativa se alastra por anos)
- “Mas você já tem um filho!”
Este último comentário é o que eu mais tenho escutado nos últimos anos, sobretudo pelas pessoas que estão mais próximas a mim. Sim, eu sei que as pessoas não falam isso por mal. Na verdade, ao dizerem esta frase elas querem acalmar meu coração dizendo que há outras pessoas em situação pior do que a minha: as tentantes que não conseguiram nenhuma vez.
É verdade, sempre há, em quase todos os cenários, pessoas em situações piores que a nossa. Mas isso não minimiza a dor de quem sente, não embota o desejo de mais uma criança, nem, tampouco, conforma as tentantes que desejam ter uma família ou ampliá-la.
O mais aconselhável, ao meu ver, é reconhecer o sentimento de quem sofre dizendo: "Imagino como se sentes. deve ser difícil mesmo!" Apenas isso já ajudaria a nos sentirmos acolhidas e diminuiria o nosso medo de estar fazendo uma tempestade num copo d´água. É isso, além de lidarmos com as frustrações lidamos, também, com os julgamentos alheios de quem não vive e, por isso, não entende bem o drama que é a infertilidade na vida de uma mulher. 
O drama se alimenta de sensação de fracasso: por que todas conseguem menos eu? sim, temos certeza que somos apenas nós, embora encontremos milhares de mulheres iguais nas salas de consultórios médicos. Se alimenta, ainda, de medo de não conseguir e, ainda, da dificuldade que é lidar com esta expectativa sem data certa para acontecer.

No meu caso este desejo se tornou ainda maior depois que meu pequeno Tom passou a evidenciar seu desejo infinito de ter um irmão. Dia desses ele me disse: 
- Mamãe, sabe qual o presente mais precioso que uma pessoa pode receber?
Eu lhe respondi: - Não, meu filho! Qual?
Ele disse: Um irmão! Ganhar um irmão deve ser melhor do que jogar vídeo-game.
De fato, Tomaz está certo! As minhas irmãs são os presentes mais preciosos que a vida me deu e permitir que meu pequeno possa experimentar esta relação é, para mim, um grande desejo.
Acontece que gravidez, para mim, não é uma conquista fácil. Tenho problemas com a ovulação, com a qualidade dos meus óvulos e com mais outras coisas que eu nem sei o que são. Isso tudo me angustia demais, sobretudo porque o desejo de ter uma família enorme sempre foi algo que me rondou o imaginário.
Não conseguir algo que sempre desejamos é uma frustração imensa e lidar com isso não é fácil. As vezes bate tristeza, outras vezes chega o desespero e, em outras, umas revoltas: Por que tantas mulheres que nem querem filhos engravidam enquanto eu, que quero tanto, não tenho esta sorte? 
Mas, como disse Cora Coralina, sempre podemos escolher! E eu escolho, diante desta dificuldade, continuar tentando ser mãe. Se não dá para gerar, vou para o cadastro de adoção, mas eu quero ter mais filhos e, como diz meu marido, de uma forma ou de outra eles virão.
É por isso que no primeiro post deste mês eu tomei a decisão de falar sobre este tema que me acompanha desde que casei, posto que iniciei o processo de adoção e será no dia 21 minha primeira entrevista neste processo. O coração está a mil e a ansiedade não cabe em mim. Sinto-me exatamente igual ao dia em que fui fazer a primeira ultrassonografia de Tomaz. 
Penso, a este respeito, que os filhos não precisam vir da gente, mas passar pela gente e eu estou com o coração cheia de esperança que outra criança, menino ou menina, virá para nossa família mais cedo ou mais tarde. 
Agora é esperar mais um pouco e esperançar pelo dia que minha família será maior. É continuar lutando, pois para infertilidade pode não ter muito jeito, mas para a maternidade há: a adoção.   



quarta-feira, 17 de maio de 2017

Mamãe, você pode ser cientista!

Hoje eu estava pensando na minha vida e na pessoa que me tornei depois que meu pequeno Tom nasceu. Em minhas reflexões me dei conta de como mudei... dos projetos que abandonei, dos tantos outros que iniciei (como este blog) e em como eu nem posso pensar em quem seria se ele não fizesse parte de minha vida.
Toda essa reflexão iniciou depois que eu participei, hoje de manhã, de uma entrevista no Bom Dia PE (Ver neste link próximo aos 45 minutos). Em casa, junto com a avó, Tomaz me viu na TV. Quando liguei para desejá-lo um bom dia e uma escola legal ele me disse:
- Mamãe, você é tão inteligente! Deveria ser cientista quando crescesse.
Esta fala simples me tocou de tal maneira que não parei de pensar em um minuto na sabedoria infantil (Talvez por isso Rubem Alves tenha dito: quem não abandonar sua maneira adulta de pensar a vida jamais será sábio).
Em primeiro lugar porque Tomaz deixou claro que eu ainda tenho um longo tempo pela frente e que, embora eu seja esta pessoa que eu sou, poderei ainda ser tantas outras e fazer tantas coisas que eu quiser. Isso me encheu de esperanças, já que eu posso, ainda, conquistar a mulher, a mãe e a filha que ainda desejo ser.
Segundo porque ele “me colocou no meu lugar”, me mostrando que ainda tenho muito o que crescer, aprender, ser e saber nesta minha vida de mãe, mulher, esposa, amiga, filha, irmã e professora.
E que bom que eu tenho meu pequeno Tom. Quem bom que ele, além de iluminar minha vida, me abre as portas para que eu possa me reinventar tantas vezes e me redescobrir às vésperas de completar meus 37 anos.
E por isso eu penso no privilégio que é tê-lo ao meu lado escutando, como trilha sonora de nossa convivência, a seguinte canção:

Felicidade é estar em sua companhia
Felicidade é ficar contigo todo dia
Felicidade é sentir o cheiro desta flor
Felicidade é saber que eu tenho o seu amor