quarta-feira, 31 de julho de 2013

Ele tomou água de janeiro


Tom fez tudo num tempo muito particular... Sentou quando quis, engatinhou quando quis, andou quando quis e com a fala não tem sido diferente.
Embora balbucie desde muito pequeno, emitir palavras com intenção de fala não foi uma coisa que ele fez bem precocemente. É claro que teve muito “mamamamamama” aos seis meses; muito “papapapapa”aos cinco, mas nunca achei que nada disso era fala nem fiquei tentando fantasiar que meu filho era demasiadamente esperto e falava tudo o que bem queria. (Confesso que me divirto ao ouvir uma mãe de um bebê de meses ser tradutora de balbucios e viver tentando significar  o que o filho já fala).
A fala do Tom aconteceu dentro da normalidade e ele foi falando coisas que achava que devia. A primeira delas foi um “Mama” quando minha sogra dava banho nele, em plena semana santa, e ele queria meu colo. Esse “Mama” foi diferente de todos os outros sons emitidos, pois ele olhou para mim e me chamou com ele. O significado estava expresso na entonação, no olhar e na sonoridade da palavra!
Em seguida, seu repertório foi se ampliando e o mais interessante é que todas as palavras que ele aprendia já as falava corretamente, sem alterar em nada as suas pronúncias. Dos verbetes do Tom o primeiro  foi PEIXE, fazendo referência a uma canção do Xuxa só para baixinhos 10. Em seguida,  água, suco, macaco, baixinho, gagau, massinha (isso mesmo, ele fala massinha), bate-bate e chegou.
O engraçado é que as primeiras palavras do Tom não foram as mesmas das outras crianças e eu acho isso muito divertido, porque gosto de quem inova. Entretanto, meu coração materno, implorava que ele falasse mamãe repetidas e infinitas vezes, o que meu filho fazia questão de não fazer.
Por pura sorte, ontem fui almoçar em casa e quando o Tom olhou para mim e para o pai ele esticou o dedinho indicador e apontou primeiro para Pery falando: Papai. Em seguida, totalmente despretensioso, ele continuou apontando, só que agora para mim falando: mamãe!!! 

Meus olhos encheram de água e ele continuou com seu falatório pronunciando em alto em bom som não mais apenas uma palavra, mas sim uma frase: Papai Chegou. Ao ouvir isso tive certeza de que a fala tinha chegado para meu gordo e que assim como tinha acontecido com o desenvolvimento motor dele, a linguagem dele é bem particular: o menino que falava poucas palavras já era capaz de criar uma frase!
Esse Tom é assim... ele me ensina todos os dias que as pessoas são como são e eu o agradeço por isso. Te amo, meu filho! Obrigada por ser o melhor professor que já tive na vida! Ainda bem que não lhe dei água de janeiro, acho que agora estaria arrependida.   


domingo, 7 de julho de 2013

Coisas que eu não posso esquecer nº 2


 

         Ontem à noite foi a festinha de um ano do Artur, um amiguinho de Tom do prédio. Essa foi a primeira vez que Tomaz foi “O” convidado para um aniversário e nós, seus pais, estávamos apenas levando–o para uma programação toda sua.

Parece que meu pequeno sabia que a noite era sua. Digo isso porque Tomaz dorme, normalmente, às 19h30 e a festa iniciava às 18h. Isso foi, para mim e o pai, motivo de preocupação, visto que achávamos que ele não aproveitaria nada. Nossa ideia era que assim que chegássemos já estaríamos voltando para casa, trazendo na bagagem um bebê cheio de abuso. Ledo engano! Tom curtiu de montão...

De longe ele foi a criança que mais se divertiu na festa: piscina de bolinha, cama elástica, corrida para cá, corrida para lá, mais piscina de bolinha, mais cama elástica e, no meio disso tudo, muito sorriso no rosto.

 

Eu fiquei tão alegre vendo tudo o que ele estava aproveitando que nada pagaria a minha alegria de presenciar meu pequeno Tom explorando o mundo feito gente grande. Nenhum dinheiro valeria o que pude viver através da felicidade de meu filho! Meu bebê aprendeu a brincar e isso é apenas o começo de uma infância recheada de muita diversão!

Ver o tom aproveitar a primeira festinha que ele foi convidado não tem preço! Isso é, sem dúvida, uma coisa que eu não quero e não posso esquecer!


(Ainda bem que a foto tirada pela querida Laurinda Marques, fotógrafa oficial do meu pequeno Tom, me ajudará a eternizar esse mágico momento. Ela sabe deixar marcado para sempre a minha grande felicidade! Valeu, querida! Obrigada ao bebê Flash pela linda imagem!) 

 

domingo, 2 de junho de 2013

Coisas que eu não posso esquecer nº 1




Amo ser mãe e tudo o que meu Tom faz eu não quero e não posso esquecer. Entretanto, algumas de suas ações ocupam lugar especial nesse pódio do que eu desejo que fique gravado até a eternidade.
O post de hoje é sobre uma coisinha feita pelo gordinho que eu JAMAIS quero esquecer. Estes dias meu pequeno grande amor começou a demonstrar de forma autônoma que será um leitor (Para nossa alegria aqui em casa). Nossa que felicidade indescritível!!! A moda do gordinho agora é ir ao seu quarto, onde há prateleiras acessíveis a ele, buscar um livro para que qualquer adulto que está em casa leia para ele.
Como ainda não fala quase nada, Tom nos comunica o desejo da leitura entregando-nos o exemplar escolhido por ele e, em seguida, nos dá os braços para que o coloquemos em nosso colo e lhe contemos a história escolhida.
É lindo demais vê-lo decidir que quer escutar história e encontrar formas de comunicar isso. É lindo demais vê-lo se interessar pelo texto lido, pelas ilustrações vistas, pelo objeto chamado livro. É lindo demais ver que todas as histórias contadas para ele, ainda em meu ventre, estão sendo fundamentais para o desenvolvimento do meu filho. 


Tenho clareza que isso é fruto da cultura literária que criamos aqui em casa. Os livros fazem parte da rotina do Tom e estão à sua disposição. Não há reclamação quando ele rasga uma página nem quando amassa uma folha porque ainda não sabe manipular com destreza. O importante é que ele tenha contato e que, a sua forma, consiga explorar as leituras que desejar.
Além disso, não tem essa de agora não ou de dizer para ele que daqui a pouco nos contamos. Quando o pequeno deseja ouvir histórias nos o contamos, pois não dá para achar que uma criança se tornará leitora sem que os adultos da casa leiam para ela muita história.
O Rubem Alves, educador dos que mais admiro, nos diz que para despertar o prazer de ler na criança é preciso contar histórias, visto que “tudo começa quando a criança fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro. Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. É a história. A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a criança escuta com prazer. A criança volta-se para aqueles sinais misteriosos chamados letras. Deseja decifrá-los, compreendê-los – porque eles são a chave que abre o mundo das delícias que moram no livro! Deseja autonomia: ser capaz de chegar ao prazer do texto sem precisar da mediação da pessoa que o está a ler”. (ALVES, 2004)     
Aqui em casa estão todos empenhando na formação leitora do Tom. Vovó, titia, titio, priminhas, papai, mamãe... tá todo mundo contado histórias para o Tom. Basta que ele se aproxime de nós com um livro na mão para que qualquer um da família comece a contar o que está na livro. Esse final de semana, pelas minhas contas, já li 137 vezes Chapeuzinho Vermelho.
O melhor de tudo é que não há cansaço para isso!!!! Pode me pedir sempre que quiser, meu amor!!!! A mamãe estará sempre a sua disposição como intermediária entre você e as histórias que moram nos livros.  

Rubem Alves, Gaiolas ou Asas – A arte do voo ou a busca da alegria de aprender. Porto, Edições Asa, 2004

  

domingo, 19 de maio de 2013

1, 2, 3 e já!!!



Desde muito novinho meu pequeno Tom balbucia muitos sons. Justamente por isso achei que ele falaria cedo, já que o silêncio foi algo que ele tratou de acabar ainda bem cedo, quando não sabia, se quer, dar alguns passinhos de quatro pés.

Acontece que isso não aconteceu, porque aqui em casa tudo é ao tempo do Tom e as coisas acontecem apenas quando ele está maduro e preparado para fazê-las. Não gosto de muito treino, de ficar enchendo a cabeça da criança para que ela, parecendo um robô, faça aquilo que queremos.

Coisas do tipo: “o neto de minha amiga já faz isso”; “o filho da prima da vizinha de uma conhecida já faz aquilo outro” não tem muito espaço aqui em casa e eu detesto que venham criar expectativas em cima de meu filho, já que ele tem o tempo dele, o jeito dele e a forma dele lidar com o mundo.

Afirmar isso não é dizer que ele não é estimulado. Isso de forma alguma! Acompanho o desenvolvimento do Tom e faço o possível para que ele conquiste oportunamente os marcos de seu desenvolvimento. Oportunizo, não treino! Acompanho, não determino! Fico atenta e não enlouquecida!

E tem sido também de forma respeitosa que tenho tentado lidar com a espera das palavrinhas do Tom. Embora ele já esteja com 1 ano e 4 meses, ainda não tem “mamãe”, “papai”, “vovó” ou “titia” na trilha sonora daqui de casa. Tem sim um monte de sons que ele emite, mas que eu não tenho o desespero em traduzi-los. Acho engraçado quando algumas mães, na tentativa de significar os sons emitidos pelos filhos, tentam atribuir sentido. “Meu filho falou mamãe” isso quando a pobre criancinha tem apenas 6 meses.

Respeito que acredita, mas eu e o pai do tom tentamos não criar expectativas. Aqui em casa já teve muito : mamamamama, papapapapa, cacacacaca e até mesmo o A, E, I, O U que ele aprendeu na Galinha Pintadinha e pronunciou no mesmo ritmo em que as vogais apareciam neste DVD. Nós nos divertimos, mas não ficamos tentando ser o dicionário do Tom: ele disse isso! Ele disse aquilo!

Acontece que de 4 dias para cá parece que o pequeno tem falado sua primeira palavrinha consciente e ela não foi o substantivo que retrata nenhum membro da família. Sempre brincamos de nos esconder em casa e, quando vamos para trás do corredor,  eu e o pai dele dizemos: um, dói, três e já vou me esconder.

Para nossa surpresa em uma dessas brincadeiras o pequeno Tom completou a contagem, emitindo em alto e bom som um JÁ! Isso mesmo, quando fizemos, um dois, três e... ele veio de lá e completou a brincadeira: JÁ

Nossa que felicidade! Meu pequeno aprendeu não apenas a pronunciar uma palavra, mas a fazer isso numa situação específica, contextualizada. Para uma mãe-pedagoga não pode haver nada melhor que a aprendizagem do filho, sobretudo quando isso acontece num contexto específico de brincadeira.

Hoje a mamãe aqui tá mortinha de felicidade e, para comemorar, compartilha com vocês um texto sobre brincadeira e aprendizagem. Boa leitura!



Quando eu estiver, no quarto, construindo um edifício de blocos, por favor não diga que eu “estou apenas brincando”, já que, entenda, eu estou aprendendo enquanto brinco sobre equilíbrio e forma.

Quando eu estiver bem vestido, arrumando a mesa, cuidando do bebé, não tenha a ideia de que eu “estou apenas brincando”, já que, entenda, eu estou aprendendo enquanto brinco. Algum dia eu posso ser uma mãe ou um pai.

Quando você me vir até meus cotovelos na pintura, ou ajeitando uma moldura, ou moldando e dando forma à argila, por favor,  não me deixe ouvi-lo dizer que eu “estou apenas brincando”, já que, entenda, eu estou aprendendo enquanto brinco. Eu estou me expressando e sendo criativo. Algum dia eu posso ser um artista ou um inventor.

Quando você me vir sentado em uma cadeira “lendo” para uma audiência imaginária, por favor, não ria e não pense que eu “estou apenas brincando”, já que, entenda, eu estou aprendendo enquanto brinco. Algum dia eu posso ser um professor.

Quando você me vir recolhendo insetos ou colocando coisas que encontro no bolso, não os jogue fora como se eu “estivesse apenas brincando”, já que, entenda, eu estou aprendendo enquanto brinco. Algum dia eu posso ser um cientista.

Quando você me vir montando um quebra-cabeças, por favor, não pense que estou desperdiçando tempo “brincando”, já que, entenda, eu estou aprendendo enquanto brinco. Estou aprendendo a concentrar-me e resolver problemas. Algum dia eu posso ser um empresário.

Quando você me vir cozinhar ou provar comidas, por favor não pense que estou aproveitando, que é “só para brincar”, já que, entenda, eu estou aprendendo enquanto brinco. Eu estou aprendendo sobre os sentidos e as diferenças. Algum dia eu posso ser um “chef”.

Quando você me vir aprendendo a saltar, pular, correr e mover meu corpo, por favor, não diga que eu “estou apenas brincando”, já que, entenda, eu estou aprendendo enquanto brinco. Eu estou aprendendo como meu corpo trabalha e algum dia eu posso ser um médico, uma enfermeira ou um atleta.

Quando você me perguntar o que fiz na escola hoje, e eu lhe responder: “Eu brinquei”, por favor não me entenda mal, já que, entenda, eu estou aprendendo enquanto brinco. Eu estou aprendendo apreciar e ser bem sucedido no trabalho. Eu estou preparando-me para o amanhã, porque hoje, eu sou uma criança e meu trabalho é brincar.


Anita Wadley

sexta-feira, 10 de maio de 2013

O Poder de um pequeno coração


 

Hoje estava aqui olhando mensagens no facebook quando, de repente, vejo este vídeo lindo e que me fez chorar de emoção: "O poder de um pequeno coração". Conforme o vídeo avançava, eu ia refletindo sobre cada momento vivido na gestação do Tom e relembrando como tudo foi tão lindo, tão intenso, tão bom!

O produto das minhas reflexões é o que compartilho no post de hoje...

Sou cheia de vida. Detesto o ócio, a melancolia, a apatia ou qualquer coisa que me deixe com menos vida, ou a vida menos digna de ser vivida. Amo muito, sofro muito e tudo comigo é de muito, é quente é pra já. Acontece que teve um dia em que eu passei a ter mais vida: 26 de maio de 2011. Naquela data, como numa linda surpresa, meu Tom entrou na minha vida e, desse dia em diante, mudou tudo em mim.

Pouco tempo depois, primeira ultrassonografia. Dia 06/06/2011 foi o dia em que, certamente, a vida pulsou mais forte. Meu Tom estava dentro de mim e as batidas de seu coração me fizeram entender que daquele dia em diante minha vida estava mais completa e eu tinha muito mais razão para viver. Isso porque, um pequeno coração tem o poder de transformar e foi pelo poder dessa transformação, que daquele dia em diante eu não era mais eu, passando a ser a mãe do Tom, o que me dava muito orgulho.

Pois é, tudo estava diferente. Isso porque, como disse a pouco, um pequeno coração tem o poder de transformar... Transformar sentimentos, fazendo tudo ser mais bonito e mais intenso. O amor, por exemplo, se expande! O medo, se triplica, a ansiedade é elevada ao infinito e tudo de bom fica pequeno diante do pequeno coração.

Um pequeno coração tem o poder de transformar, também, as relações. Em fração de segundos eu deixava o meu seguro lugar de filha, aventurando-me no sempre instável lugar de mãe. Lugar que, diga-se de passagem, é infinitamente melhor.

O pequeno coração transforma, ainda, inclusive as nossas escolhas. As viagens, as compras, a casa, a profissão, a cor e o tamanho do cabelo tudo passa a ser decidido para o bem estar do pequeno coração. Com ele tudo que nos envolve passa a ser escolhido em função desse coraçãozinho miudinho que aprendeu a bater em nosso ventre.

Além disso, um pequeno coração tem o poder de transformar a família. O marido e a mulher viram pai e mãe e, quando isso é desejo conjunto, a família ganha forma, ganha corpo, ganha vida. O pequeno coração passa a ser o coração de toda família e mesmo em sua delicadeza, exerce o poder de dar vida a todos que estão ao seu redor.

E é por tudo isso que um pequeno coração tem o poder de transformar a nossa vida para sempre. O pequeno coração do Tom fez isso comigo. Me deu de presente algo que nunca deixará de ser meu: a maternidade! Obrigada Tomaz por ter me transformado tanto. O seu pequeno coração é o que há de maior em toda minha existência!

 

DEU A LOUCA NOS MAMÍFEROS


Quem acompanha esta Viagem de Mãe sabe que um dos maiores motivos de minha preocupação foi a questão da Alergia à Proteína do Leite de Vaca – ALPV - que o pequeno Tom desenvolveu. Foram meses a fio experimentando diversas opções de leite hidrolizado, tais como  Neocate, Pregomim Pepti, Aptamil Pepti... até ele conseguir chegar ao leite comum que todos os bebês consomem. Foram 10 meses de muita luta, muito gasto e muito aperreio.
Finalmente parecia que tudo tinha terminado, mas há uma semana a pediatra do meu pequeno achou que era melhor tirar a lactose do leitinho dele, de modo que ele teve que abandonar o Ninho 1 +, conquistado com muita luta, voltando ao Nam sem Lactose.
Nossa, me deu um soco no estômago ouvir da Dra. Niedja que meu pequeno poderia estar desenvolvendo uma intolerância e que ele teria que abandonar a lactose. Como pode um bebê sofrer tanto com algo que é a naturalidade da alimentação de qualquer mamífero em anos iniciais da vida: o leite.
Desde pequeno o Tom sofre na sua difícil relação com o leite e se antes a minha maior preocupação era com a questão financeira, já que não é nada barato ingerir leites especiais, hoje eu me preocupo com a questão dele estar crescendo e desejar comer as mesmas coisas que consomem todas as crianças.
Espero que esta seja apenas mais uma etapa e que, logo-logo meu gordo consiga a superar isso.
É muito ruim não poder proteger os filhos de todo mal. Mães deveriam ter super poderes para evitar que coisas ruins acontecessem com as crianças.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A birra, o olhar alheio e a intervenção materna


 
      Domingo eu estava no supermercado quando Tomaz, que realmente assumiu a função de andarilho, decidiu ficar para lá e para cá entre os corredores. No meio do passeio ele viu que um pedacinho de uma cerâmica do piso estava quebrado e decidiu que iria mexer ali. Acontece que dentro do buraquinho tinha um monte de sujeirinha e eu, como uma mãe zelosa, tratei logo de impedi-lo de colocar a mão no local:

- Não pode, Tom! Tem sujeira aí e vai melar a sua mão. 

Nesta hora, para minha surpresa, Tom tratou de fazer algo que eu sempre achei horrível e temi que acontecesse comigo: jogou-se no chão e deu um escândalo daqueles. Nesta hora, tratando de aplicar todas as leituras que já fiz sobre birra infantil, me abaixei e falei baixinho (porém dura): levante-se daí! Isso é feio e você vai se machucar se continuar fazendo isso.

Ele parecia que não me escutava e continuava gritando. As pessoas ao meu redor começaram a me olhar e recriminar ao meu filho (e a mim também). Parecia que eu podia ler na testa dos outros:

- “Esta mãe não vai fazer nada?!”

- “Se fosse meu filho eu deixava ele aí se jogando e ia embora que já passava”.

- “Se fosse meu filho levava umas palmadas”.

Por pura sorte eu tive oportunidades distintas de pensar a educação doTom e não foi nada disso que eu fiz. Eu abaixei, olhei para ele e disse com a voz em tom firme: “Pare com isso, meu filho. Se você se jogar assim irá se machucar”. Em seguida me mantive na frente dele, ainda abaixada, e fiquei esperando ele se acalmar, o que foi, pouco a pouco, acontecendo.   

Ele entendeu que não poderia agir daquela forma e eu não gritei, não bati dele. Falei com ele, sem gritos, mas com firmeza, o que foi percebido pelo garotinho de apenas 1 ano e 3 meses. É claro que precisei esperar um tempo para ele se acalmar e isso não aconteceu em dois segundos.

Foi neste momento que agradeci uma leitura de texto que fiz meses anos, cuja autoria é de uma das pessoas que mais admiro na vida: Professora Luciene Tognetta. Esta leitura foi fundamental para que eu soubesse como lidar com meu filho no momento da birra e, justamente por isso, hoje o compartilho com vocês.

 

 

Quando uma criança faz birra no supermercado, é preciso olhá-la firmemente e permitir-lhe uma es­colha “Filho, você pode escolher entre o chocolate e o outro doce tal”. Qual dos dois você escolhe?”. É claro que os rios de lágrimas e de escândalos podem continuar e será preciso manter a calma para poder dizer-lhe “filho, parece que você não quer nenhum dos dois... então vamos embora”.

Quando combinamos com as crianças que vamos comprar sapa­tos, por exemplo, e as crianças tendem a correr pela loja, será preciso também lhes dar uma opção: “Viemos comprar sapatos, vocês preferem comprá-los ou vamos embora?” Passados alguns segundos em que as crianças se aquietam, quando voltam às mesmas brincadeiras, será preciso que se diga “Bem, vocês fizeram a escolha! Vamos embora”. Costumeiramente, ao tomar essa atitude, os filhos podem voltar-se ao adulto e dizer que não farão mais, que vão, enfim, deter-se ao que era objetivo inicial. E nesse momento será preciso dizer-lhes: “Agora não estou disposto a voltar. Vai ficar pa­ra outro dia em que minha raiva passar”.

Se agirmos assim, não precisaremos usar os famosos tapas que são vistos por muitos como práticas educativas. Não devemos NUNCA bater numa crianças e, certamente, motivos não nos faltam para considerar essa postura INADEQUADA:

Primeiro - um tapa bem dado ou não, não permite a adequação de um comportamento, porque é de caráter externo. A criança não pensa sobre o acontecido. A ação é realizada pelos pais e, por­tanto, não há legitimação da correção que o pai pretendia dar ao filho.

Segundo -  permitir um ta­pa é permitir uma forma de violência; e o que é pior, favorecer que essa criança também tenha es­se instrumento como a única possibilidade de resolver seus problemas com seus iguais. Filhos que apanham, legitimam seu desejo de também o fazer para garantir aquilo que mais desejam : serem adultos, iguais aos que tanto admiram: seus pais.

É por isso que as conversas e reflexões são as melhores formas de educar, porque quando permitimos aos filhos que façam escolhas, estamos dando a eles a oportunidade de pensar e de tomar decisões. As crianças não aprendem pelos castigos que são pensados pelos adultos. As crianças aprendem a regular seus comportamentos podendo to­mar decisões.

Assim, será preciso externalizar para os filhos o quanto ficamos chateados com as birras, porque as crianças precisam saber o que sentimos. O adulto equilibrado extravasa sua raiva verbalizando ao outro o que sente e como se sente diante de um acontecimento, seja com os filhos, seja entre seus iguais do mundo adulto.

Além disso, não devemos nunca “sair do salto”. Em outras palavras, um adulto não perde a serenidade num momento de conflito. Ele é O adulto da relação (e quantos se esquecem disso e gritam, esperneiam como crianças!). A brevidade da fala e a firmeza no que propõe são instrumentos que farão a criança repensar seus comportamentos.

O que nos ajudará a manter o equilíbrio nessas situações de birra é a compreensão de que as crianças não fazem travessuras e desobediências porque são más e sim porque há nelas a mesma regularidade de toda a espécie humana: o desejo de satisfazer seus interesses, de se sentirem aceitas, de compreenderem-se. Quando batem, xingam, mordem, seus iguais ou a autoridade, o fazem demonstrando não conseguir conter uma frustração, um medo, uma insegurança, uma raiva, sentimentos incontroláveis e por isso, expressos. Respeitamos as crianças quando permitimos que tais sentimentos sejam manifestados. Em formas violentas? Obviamente que não, permitimos o sentimento descrevendo-o, dando provas de como as compreendemos, de como as amamos: “ Vejo o quanto você está irritado hoje. Vejo que você gostaria muito de levar aquela bala...” é exemplo de uma linguagem promissora de quem é humano também o bastante para experimentar tais inquietitudes ao longo de suas relações com os outros.

Há uma última idéia que é preciso ser esclarecida: não se ensina ninguém a nadar quando se está afogando. Não adiantarão lições de moral em momentos de crise. Aliás, elas definitivamente perdem o poder quando a Psicologia constata que uma evolução moral é fruto de uma construção interna conseguida pela experiência vivida e sentida. Estamos convictos de que a moral é uma construção do sujeito, em suas interações com o mundo que o cerca. Uma construção que depende de duas qualidades essencialmente humanas, enquanto possibilidades de evolução: o pensar e o sentir

Quando as crianças com as quais convivemos têm a possibilidade de pensarem sobre suas ações, de reconstituí-las, ao expressarem o que poderiam ter feito para que um determinado comportamento inadequado não acontecesse, estamos favorecendo a construção das estruturas de pensamento, ou seja, a razão. Por outro lado, quando permitimos que as crianças se sintam acolhidas, pelo respeito mútuo, pela disposição do adulto em não puni-las e sim auxiliá-las a encontrar soluções para seus conflitos, estamos favorecendo a construção de uma identidade capaz de autocontrolar-se.

Quando permitimos que as crianças experimentem expressar o que sentem, num conflito entre pares, estamos permitindo que se indignem, que sintam raiva. Porém, ao se indignarem, apresentando ao outro as razões de tal indignação, estamos favorecendo que elas possam construir para si, um gostar de si que não permita que a façam sofrer e ao mesmo tempo, um respeitar o outro, porque lhes damos as razões para desaprovar suas ações.

O fato de indignar-se permite que se construa o valor do diálogo, da tolerância, do perdão, do arrependimento, da amizade como conseqüências das ações  não violentas que podem ser impedidas quando as transformamos em expressão de sentimentos. Queremos dizer que é preciso permitir a raiva, instigando a criança a encontrar maneiras de expressar o que sente sem violência. Quando perguntamos, por exemplo “como você pode fazer para mostrar a seu amigo que não gostou de sua atitude, sem bater nele?” asseguramos a importância do sentimento e permitimos que um valor seja construído.

Contudo, o contrário, ao assumirmos uma postura, como “pais democráticos” que tudo permitem e pouco proíbem, favorecemos a construção de uma imagem positiva de si pela criança de que “ela tudo pode” e de fato, os resultados serão tão ruins quanto à exposição da criança às punições e castigos. Primeiramente, a criança não sentirá o “Medo da perda do amor dos pais” quando não agir bem já que demonstramos atribuir pouca importância a seus comportamentos inadequados. Por outro lado, essa mesma criança estará formando uma imagem de si baseada em outros valores que não aqueles de solidariedade, de respeito, de justiça e poderá envergonhar-se apenas quando não se mostrar a mais forte, a mais ágil, a mais bem sucedida. (De La Taille, 1998)

Enfim, a educação dos filhos não é definitivamente tarefa de qualquer um. É tarefa de quem entende de desenvolvimento humano e de quem está disposto a enxergar uma nova forma de educar para a felicidade dos filhos.