sexta-feira, 15 de junho de 2012

Há três coisas para as quais eu nasci


Eu simplesmente adoro Clarice Lispector. Gosto tanto que sempre disse que se tivesse uma filha seria esse o nome que daria a ela (Calma, gente... Colocaria somente o Clarice sem o Lispector. Rsrrsrs). Porém, como veio o menino, escolhi Tomaz que, mesmo sem homenagear a ninguém, acho LINDO!
 Esses dias, lendo alguns de seus escritos, me deparei com o seguinte texto: “Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].”
Caramba, que texto profundo e que é a minha CARA! Acho que eu, assim como Clarice, nasci para essas três coisas. Amar aos outros como primeiro ponto é de extrema necessidade nessa sociedade tão perversa. As pessoas são cada vez mais individualistas e parece que amar ao outro não tem espaço. Como pode as pessoas agirem como se o outro não existisse. Apenas pode se disponibilizar a ser mãe que tem a capacidade de amar o outro como a si mesmo (sim, um dos mandamentos bíblicos).
Imaginem as mães egoístas. Por incrível que pareça, há muitas delas por aí. Além de não darem conta de suas obrigações, suas incapacidades de amar ao outro terminam por adoecer seus filhos e a sociedade, pois essas pessoas carentes de amor terminam por contribuir no desajuste social.
O segundo tópico, “nasci para escrever”, eu descobri na vida acadêmica. Ah, como adoro escrever. Se duvidar passo o dia inteiro fazendo isso, embora ache que não é uma das minhas maiores virtudes. Quem sabe um dia, de tanto tentar, termino me tornando uma grande escritora (nem que seja grande no sentido de quantidade de textos produzidos rsrsrrs).
O terceiro tópico que Clarice dissertou e cujo conteúdo também é a minha cara é “nasci para criar meus filhos”. Nossa, no momento esse é o que eu mais me identifico. Que prazer eu sinto em amamentar (mesmo de forma artificial), dar banho, cuidar, brincar, enfim, fazer tudo com o Tomaz. Certamente, eu nasci para isso.

Por isso, como disse a Clarice, tenho que me apressar que o tempo urge. Tomaz acabou de acordar e, embora tenha nascido também para escrever, nasci anda mais para criar meu filho e tenho que parar agora para correr até ele. Até já, pessoal!

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Ra-ra-rá, mas eu tô rindo à toa!


Tem coisa mais gostosa do que sorriso de filho? Tem não, de forma alguma. Ainda por cima quando eles aprendem a sorrir, ou melhor, gargalhar, como foi o que aconteceu com Tomaz nesse final de semana. A cada brincadeira do papai (ele simplesmente ama as brincadeiras do papai. Ninguém ganha para ele nesse quesito) ele gargalhava ao som de um “rarrai”!
Nunca tinha visto nada parecido: um neném de cinco meses que gargalha e ainda faz isso de maneira altamente, digamos assim, sem etiqueta! Confesso que nem liguei para uma possível deselegância do meu pequeno, porque o que eu realmente sentia a cada gargalhada sua era uma felicidade ENORME!
Ao vivenciar essa sensação eu me lembrei de uma pesquisa que eu tinha lido na Revista Crescer, cujo conteúdo tratava do sorriso infantil, afirmando que o riso do bebê provocava sensação de bem-estar na mãe!
Segundo o estudo ”ver o filho feliz traz sensação de prazer para a mãe, principalmente quando são bem pequenos, que é aquele momento em que os vínculos estão se formando”. 
Não tenho outros dados científicos que comprovem essa afirmação, mas minha pesquisa de campo, aquela realizada aqui em casa mesmo tendo como sujeito (ou seria melhor participante?) o pequeno Tomaz, não me deixam dúvidas de que esse estudo é corretíssimo.
A cada riso do pequeno eu me sinto mais motivada a agir em sua direção, interagindo com ele para, quem sabe, vê-lo rir mais e mais. Isso também é afirmado na pesquisa que aqui estou citando, quando destacam que

o sorriso genuíno já traz sensação de bem-estar de quem o recebe e fortalece as relações humanas. Quando é de um filho, provoca um ciclo chamado retroalimentação. Ou seja, o sorriso do bebê estimula o cérebro da mãe, que passará a interagir ainda mais com o seu filho, e ele irá responder de forma positiva aos estímulos recebidos da mãe. 

Por isso, se queremos estimular nossos pequenos a se desenvolverem mais e melhor (sabemos que o desenvolvimento infantil é afetado, em boa parte, pelos estímulos externos, sobretudo os provocados pela mãe que é a figura mais significativa para um neném), talvez um caminho seja o de provocar neles boas risadas.
Sem dúvidas essa será uma forma gostosa e interessante de estimulá-los, ampliando a possibilidade de desenvolvimento dos nossos pequenos e, ao mesmo tempo, desenvolvendo a nós mesmas. Acontece que no nosso caso o que estaremos desenvolvendo mesmo é a nossa felicidade. Que sorte a nossa, hein? Além de melhorar a vida dos nossos filhos, que são as pessoas mais importantes para nós, melhoramos, ao mesmo tempo, nossa própria vida. 


Dados disponíveis em http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI7622-10510,00.html 

domingo, 10 de junho de 2012

O “vir a ser” de um bebê: a maternagem nos primeiros tempos




Winnicott diz que não existe bebê sem a mãe, assim como não existe uma mãe sem o pai. A função do pai no estágio inicial de vida do bebê é a de maternar a mãe, assim como a da mãe, consequentemente, maternar o bebê.
Um bebê, na concepção dele, inicialmente é composto por partes separadas (não-integradas) de: pés, cabeça, braços, corpo etc. Como diz Winnicott (2000, p. 224), um “bebê que não teve uma única pessoa que lhe juntasse os pedaços começa com desvantagem a sua tarefa de auto-integrar-se, e talvez nunca o consiga, ou talvez não possa manter a integração de maneira confiante.”
É na experiência de alimentar o bebê, da amamentação (seja qual forma for: seio ou mamadeira) que se promove a possibilidade de construção de vínculo com o mundo. O momento da ilusão, em que o bebê acredita ser ele o criador de tudo que recebe (o seio, o leite etc.), possibilitará a entrada no mundo externo quando a mãe favorecer esse tipo de experiência (o bebê acreditar que seja ele o criador da situação). A mãe oferece ao bebê continuamente um pedacinho simplificado do mundo, de algo que está fora (mesmo que ele creia que seja criação dele, não o é verdadeiramente, mas ele só descobrirá isso mais tarde), que ele, através da mãe, passa a ter contato, a conhecer.
Nessa perspectiva, fazer uma boa “maternagem” é ser uma mãe suficientemente boa (na minha visão, é uma mãe que é nem tanto nem tampouco, é na medida, atende às necessidades do bebê instintuais e egóicas, vai se desligando gradualmente do bebê, à medida que o bebê vai necessitando menos dela e saberá quando de disponibilizar ao bebê, caso haja necessidade novamente). Inicialmente há uma adaptação quase completa às necessidades do bebê, e à medida que o tempo passa – e o bebê vai indicando essa possibilidade – ela adapta-se cada vez menos, de modo gradativo, seguindo a crescente capacidade do bebê em lidar com o afastamento dela.
O bebê pode ganhar com a experiência do afastamento, uma vez que a adaptação incompleta às suas necessidades abre espaço para a entrada real do seu conhecimento sobre o mundo externo a ele, no que ele, gradualmente, perderá a ilusão de que ele cria tudo e passará a existir o outro além dele (antes dessa fase o bebê acreditava que ele e a mãe fossem um só). Desde que essa experiência de afastamento não seja por um tempo maior que o tempo que ele possa suportar, é uma experiência importante e positiva na estruturação do psiquismo da criança, que possibilitará o crescimento de um sujeito confiante e seguro.
         Assim mamães, ajudem seus bebês nessa jornada de tornar-se um sujeito maduro, capaz de adequar-se às exigências da sociedade sem abrir mão excessivamente de sua espontaneidade pessoal. E papais, ajudem as mamães, e consequentemente seus bebês, nessa tarefa, que pode ser naturalmente e simultaneamente deliciosa e apreensiva.

Por Katherinne Gonzaga[1]

          A foto abaixo é uma ilustração da pessoa que faz a maternagem com Tomaz e da pessoa que exerce a maternagem com a mãe dele. 




[1] Psicóloga Clínica, Psicanalista da Sociedade Psicanalítica da Paraíba, Mestre em Educação (UFPB), Especialista em Psicologia Clínica – Psicanálise (EPSI/PB) e Especialização na Área da Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes (TELELACRI/USP).

sábado, 9 de junho de 2012

5º mesversário ao som de Conga La Conga


Hoje é um dia muito especial, meu pequeno Tom faz 5 meses. Nem que eu tivesse o dom de prever, imaginaria que minha vida hoje estaria como está. Tudo é mais intenso, mais urgente, mais complicado, mas, sobretudo, mais cheio de amor e diversão.
Há cinco meses eu deixei de ser eu mesma para me tornar a mãe de Tomaz e é incrível a diferença que isso faz. Pude me dar conta de tanta transformação hoje pela manhã quando, depois de 6 horas sem comer, Tomaz decidiu ficar empurrando a mamadeira para fora da boca com a língua, chorando abusadinho.
Nossa, como pode esse menino ficar tanto tempo sem comer e ainda rejeitar a comida? pensei eu. Foi nesse momento que resolvi convocar o maridão para me ajudar nessa difícil tarefa de alimentar Tomaz, direcionando-o o seguinte comando: Pery, distrai o menino aqui para ver se ele come.
Prontamente o pai de Tomaz (que nesse momento eu percebi que mudou demais também, talvez até mais do que eu) pegou dois chocalhos e começou a dançar, embalado pela trilha sonora CONGA LA CONGA da Gretchen que ele cantava de forma meio desafinada. Ao invés de fazer o Tomaz comer, o pai dele fez foi com que eu me acabasse de rir, e aí foi que a coisa ficou mais difícil ainda.
Quando eu consegui me controlar, o pai de Tomaz já tinha feito de tudo: dançado Gretchen, cantado músicas infantis, chocalhado com os brinquedos, até mesmo descascado um abacaxi de pelúcia que o Tom tem ele já tinha feito. Após tanto esforço, o nosso pequeno não só comeu, como não deixou nenhuma gotinha dos 240 ml. de leite que estavam em sua mamadeira.
Quem imaginava, há cinco meses, que eu veria meu marido dançando Gretchen e ainda ficaria feliz com isso, hein? Tudo pelo bem estar do Tomaz que agora é nossa grande prioridade. É muito bom ser mãe desse pequeno, sobretudo tendo o pai que ele tem. Valeu maridão! O Tomaz adorou sua performance comemorativa pelo seu 5º mesversário.
Quanto a mim, estou aqui pensando no que ainda verei pelos próximos meses e anos. Ah, o Tomaz terá que nos pagar com juros todos esses micos vividos. Os juros? Isso ele paga com amor.  

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Errar é humano


A semana terminando e isso significa que meu retorno ao trabalho está se aproximando... Por isso, esses dias estou aproveitando os últimos minutos e segundos disponíveis para ficar em tempo integral com o meu gordo.
Como uma das atividades preferidas do pequeno Tomaz é ver DVD, tirei a semana para fazer um intensivo com ele, terminando de decorar as últimas musiquinhas que me faltavam aprender. É, ele não gosta de qualquer DVD, apenas daqueles que são coloridos e musicais: Cocoricó, Galinha Pintadinha I e II, Os Pequerruchos, etc. Eis que no meio dessa minha perigrinação entre os chatosos Patati Patatá e o DVD não muito interessante da Galinha Pintadinha (essas opiniões são minhas não do Tomaz. Ele pensa justamente o contrário disso) eu tenho uma grata surpresa: o DVD Toquinho no Mundo da Criança.
Tomaz tem esse DVD faz uns dias, mas eu ainda não tinha parado para assistir prestando atenção junto com ele. Ontem fomos fazer isso e, de repente, passou a faixa ERRAR É HUMANO. Gente, fiquei emocionada.
Além das imagens serem lindas, bem cuidadas e com colorido maravilhoso o conteúdo da música trata de um tema importante para o desenvolvimento dos nossos filhos, sobretudo numa sociedade onde a beleza e o sucesso são “valores” tão importantes para a maioria das pessoas: a questão dos defeitos de cada um.
Ao tratar desse tema em sua canção, Toquinho destaca que não temos que ter vergonha por não sermos o melhor da escola ou qualquer coisa assim. Isso porque, quando não sabemos de algo que consideramos importante, “a vida irá, aos poucos, te ensinando, e o certo você vai saber: errando, errando, errando!”
Caramba, parece simples essa afirmação, mas ela pode nos ajudar a ensinar aos nossos filhos uma coisa tão natural para a aprendizagem que é o erro, o erro construtivo, a tentativa de acerto. Isso tem que ser aprendido como parte do processo... Se assim o for, milhares de pessoas deprimidas em função do erro poderão abandonar suas condições de fragilidade e continuar tentando, tentando, tentando. Que bom será quando for assim. Parece que hoje em dia ninguém mais quer errar nem ralar e, por isso, copia trabalho da internet ao invés de pesquisar, cola da prova do coleguinha ao invés de estudar, toma remédio para emagrecer porque não quer ter o sacrifício da dieta.
Que bom que Toquinho poderá me ajudar a ensinar ao Tomaz que Errar é Humano, como ele mesmo colocou no título da canção. Obrigada por essa, Toquinho! Vou ter o maior orgulho de ser a mão que ajudará o Tomaz a andar de bicicleta.
Por enquanto, deixa ele aprender, errando e conseguindo, a pegar os objetos que é mais fácil que andar de bicicleta!



Quem quiser ver o clip da música que eu falei, é só clicar aqui: Errar é Humano

terça-feira, 5 de junho de 2012

A viagem de volta ao trabalho!


Em 4 dias o pequeno Tomaz ficará um pouco maior: 5 meses! Nossa, como passou rápido. As pessoas me diziam isso e eu, que vivia no olho do furacão dos refluxos do Tomaz, sentia muita raiva ao ouvir tal afirmação!
Hoje ele está bem melhor. Gofa muito ainda, mas a mamãe nem liga tanto e ele parece já não sofrer mais, pois, após ficar todo gofado, abre um sorriso lindo que me parece dizer: fica tranquila, mamãe, eu estou bem! Meu coração se conforta com isso. Além do mais, a pior parte desse refluxo que era o momento em que ele se engasgava parece que agora é coisa do passado e não acontece mais.
Nessa nova fase de mãe menos surtada, me parece que as pessoas estavam certas... O tempo passa rápido demais! Apenas essa semana me dei conta que 09/06/2012 é uma data fatídica: 4 meses de licença maternidade mais um mês de férias correspondem aos exatos cinco meses que Tomaz vai completar. Isso quer dizer que a comemoração desse mesversário do pequeno terá, também, um pouco de despedida. Nossa, que sentimento HORRÍVEL!
Pode parecer drama para quem nunca vivenciou essa experiência ou um pouco de exagero para quem já passou por ela, mas o que sei, realmente, é que meu coração está aos pedaços. Depois de passar nove meses com ele em minha barriga e 5 meses ao seu lado todos os dias o dia inteiro eu finalmente retornarei às minhas atividades normais. Por mais que adore minha vida profissional e não queira abrir mão dela de forma alguma, cada minuto a mais marcado pelo relógio estão sendo vistos por mim com um minuto a menos de convivência diária com meu filho.
Não estou muito preocupada achando que Tomaz sofrerá, pois sentirá minha falta. Acho que quem vai chorar quando esse cordão umbilical for cortado sou eu. Tomaz é tranquilo e quase não estranha as pessoas. Além disso, ele tem uma relação ótima com a babá dele que já está acompanhando-o há três meses, o que o deixará tranquilo durante o dia.
Nossa, escrevendo isso percebi que fiquei mais angustiada ainda. Será que ele realmente não vai chorar? Oh, não! Meu filho não liga mais para mim.... Reflexões de uma mãe neurótica. Até parece que o que eu queria mesmo é que quando eu saísse de casa ele ficasse como na foto abaixo: 


Nossa, quem realmente está sofrida sou eu! Penso eu: ele ainda não se vira sozinho... será que quando ele fizer isso eu vou estar no trabalho? Será que quando ele engatinhar eu também estarei lá? Oh, não, Tomaz!!!! Deixa para fazer tudo isso durante o final de semana, tá? Caso contrário, essa mãe vai chorar de montão ainda!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Generosidade não pode ser circunstancial


Estava eu estudando estes dias quando tive o privilégio de ler no livro da minha querida professora Luciene Tognetta a seguinte reflexão:

 Eis como uma amiga me contou a história passada com sua filha:
 Preocupada com sua demora em chegar da escola, eu estava aborrecida quando ela finalmente apareceu. Com a voz zangada, pedi a ela que explicasse a razão do atraso.
Ela disse:
- Mamãe, eu estava vindo a pé com a Julie, quando, no meio do caminho, ela deixou cair a boneca, que se partiu em mil pedaços.
- Ah, meu bem – respondi- você se atrasou porque foi ajudar Julie a tentar colar os pedaços da boneca.
Com sua vozinha inocente minha filha me disse:
- Não, mamãe. Eu não sabia como consertar a boneca. Só fiquei lá para ajudar a Julie a chorar.
(Dan Clark)


Com os olhos marejados eu quase não consegui terminar de ler o texto e comecei a refletir que o tema da generosidade estava aparecendo, de forma recorrente, nos meus dias. Dias atrás, por exemplo, meu querido e amado orientador Fernando Andrade (mesmo tendo concluído o mestrado ele ainda é meu orientador e será sempre) me perguntou o que de melhor eu tinha aprendido com meu pai. Na hora eu pensei e, de forma rápida, respondi: aprendi a ser uma pessoa generosa. Ah, isso meu pai sabia ser!


Quem nunca chegou à minha casa e não comeu um pãozinho torrado por ele? Quem de nossa família nunca foi levado ao trabalho, à faculdade ou à qualquer canto por ele, que ainda se sentia lisonjeado em nos dar carona? Luizinha, quer seu leite? Até mesmo a Amanda, que ele sabia que não tomava café de manhã, ele dirigia a pergunta: o que queres que eu faça para você, minha filha?
Quantas manhãs meu telefone tocava e era ele: “minha filha, como Tomazinho passou a noite?” E eu respondia: “passou bem, pai”! E ele desligava... Não era nada, ele queria apenas saber como estávamos.
Meu pai sempre foi assim. Isso eu não tenho dúvidas: generosidade aprendi com ele. Ainda bem. Penso isso porque se tem algo que eu acho horrível é quem não sabe compartilhar, quem pensa que o mundo é seu próprio umbigo e não divide as coisas com os outros. Infelizmente nesse mundo tem gente que dá mais valor as coisas do que as pessoas.
É por isso que hoje no café da manhã, quando surgiu o tema do que queríamos que Tomaz fosse quando crescesse eu não tive dúvidas: um homem generoso. Tudo o mais de sua vida será escolha sua, mas a generosidade, a honestidade, a solidariedade, ou seja, as virtudes, isso não vou esperar ele crescer para tomar essa decisão. Essa escolha eu já fiz desde antes dele nascer e, é por isso, que tenho pensado tanto nas virtudes: hoje, mais do que nunca, tenho a responsabilidade de educar!
Alguém pode estar se perguntando: será que eu posso escolher isso por ele? Com certeza não! Mas posso escolher tomar atitudes que favoreçam a sua formação moral e fazer da minha casa um ambiente no qual ele aprenda a cooperar, tendo oportunidade de desenvolver uma personalidade ética. Ética, o que é ética? Ah, essa palavra tão pequena e cheia de significados quer dizer uma vida boa para e com o outro em instituições justas.
Como desejo que Tomaz seja uma criança, um adolescente, um jovem e um homem capaz de reconhecer que a vida dele só pode ser boa para e com o outro em instituições justas. Para ele reconhecer isso, eu terei que fazer a minha parte: oferecê-lo uma educação na qual o outro tenha valor, na qual a justiça seja um ideal de vida!
Não apenas eu posso fazer isso: todos nós que temos o privilégio de educar (sendo pai, mãe ou professor e professora) podemos fazer isso. Temos que tomar essa decisão: formar meninos que sejam melhores para si e para o mundo.
Para isso, precisamos compreender que a virtude não é circunstancial. Algumas pessoas dizem: “vou ensinar meu filho a dividir apenas com quem divide com ele...” “Vou permitir que meu filho empreste o lápis na escola apenas aos garotos que são cuidadosos. Aquele menino que todo dia esquece o lápis, ah, a esse eu não vou deixar ele emprestar não!”  Quando escuto esse tipo de afirmação eu fico triste e penso, isso não fará parte da vida de Tomaz.
Quanto erro temos cometido ao educar! Não podemos educar os nossos filhos desenvolvendo neles a crença de que a solidariedade ou qualquer outra virtude é circunstancial ou seletiva. Não posso ser bom apenas para mim ou para poucos ao meu redor. Essa forma de ser não é ética.
O que eu quero mesmo é que Tomaz aprenda que, sendo melhor para o outro ele está sendo melhor para ele próprio. Eu desejo, de fato, que isso seja introjetado em sua personalidade. Não quero isso apenas para que Tomaz seja considerado bonzinho. Desejo isso, sobretudo, para que ele possa ser feliz! (esse é o desejo de toda mãe: ver seu filho feliz). Mas o que tem a ver ser generoso e feliz? Comte-Sponville, citando Spinoza, afirma que “o amor é a felicidade e a generosidade é o caminho”.  
É por isso que tenho que apresentar esse caminho ao meu filho. Por isso, tentarei fazer com que Tomaz aprenda que o prejuízo de ter um lápis quebrado por um colega é menor do que o benefício de ter ajudado alguém... Tenho essa dívida com ele porque isso eu pude aprender com meu pai, vivendo em uma família que sempre favoreceu o compartilhar: eu faço parte de uma família de pessoas generosas: mãe, pai, irmãs, sobrinhas... Atém mesmo o cunhado, que chegou na família de repente, é uma das pessoas mais generosas que pude conhecer.
GENEROSIDADE: Isso eu aprendi. Por isso, espero conseguir fazer pelo meu filho aquilo que meu pai fez por mim: ajudá-lo a ser alguém melhor, por ele mesmo e não em função do contexto. Assim, se um dia Tomaz se atrasar na volta da escola porque ajudou alguém a chorar, eu também chorarei, mas de alegria, tendo a certeza de que minha missão foi cumprida.